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APRESENTAÇÃO

 

            Ao apresentarmos este compendio de estudos sobre Maria; MARIOLOGIA: descrevemos toda a caminhada da Virgem Mãe, da Terra rumo a Pátria Celeste.

            Mariologia, quer dizer, Doutrina sobre Maria. É o estudo que diz respeito à Theotokos, Mãe de Deus feito homem, Jesus Cristo.

            Ao ser cultuada em sua condição de Mãe de Deus, a Virgem Maria, leva os fiéis ao seu Divino Filho, à comunhão do Espírito Santo e ao amor benevolente de Deus Pai.

            Maria, Mãe de Deus a “Serva do Senhor”, é uma criatura privilegiada, desde antes do seu nascimento. Segundo o Protoevangelhos de São Tiago, apócrifo do século II considerado como uma fonte autêntica por Clemente de Alexandria (140-220) e também por Orígenes (185-253) a Virgem Maria nasceu de um casal de justo, Joaquim e Ana. Última flor da vara de Jesus (Is 11,1) foi levada por seus pais com a idade de três anos, ao Templo de Jerusalém, o lugar da presença Divina.

            Sigamos as Sagradas tradições do Oriente e, com elas à vista e a fé na alma, Deus nos ajudará para levarmos ao fim a difícil peregrinação que nos propusemos: Acompanhar aos passos da Virgem de Nazaré, da sua concepção até no céu com Jesus.

            Em Nazaré, pequena cidade da Baixa Galiléia, vivia um homem honrado por nome Joaquim, da tribo de Judá, e da descendência de Davi por Natan.

            Sua esposa tinha por nome Ana (graciosa).

            Ambos eram bons e observavam com fé no coração os mandamentos de Jeová. Mas o Senhor apartava deles o seu olhar e Ana continuava estéril, depois de vinte anos casados.

            Joaquim podia romper aquele fecundo laço, dando-lhe as cartas de divórcio, que a lei dos fariseus com tanta facilidade concedia.

            Lei bárbara, inumana, em que as esposas eram escravas e os depóticos senhores, “pois só por ter deixado cozer de mais a vianda do dono da casa ou por não ser bastante graciosa, podia o homem repudiar sua mulher e unir-se à outra”.

            Ana vivia triste, porque a infecundidade era, assim, olhada em Israel como um opróbrio.

            Mas Joaquim amava sua esposa, e vivia resignado entre o trabalho, a oração e a caridade.

            Pediam fervorosamente em suas preces para que Deus lhes concedesse um herdeiro, para se verem limpos da mancha que sobre eles pesava, e Deus escutou os seus rogos, porque saiam de dois corações puros que punham n’Ele a sua fé e esperança.

            Ana sentiu, finalmente, agitar - de em seu ventre o gérmen dum novo, e feliz da vida foi participá-lo a seu esposo.

            Passou uma e outra lua, e por fim em uma manhã do mês de Tirsri, Ana foi mãe, e Joaquim apresentou aos parentes e amigos uma linda menina, formosa como um

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Anjo, loira como o ouro dos mercadores do Egito. (Segundo a opinião de alguns orientalistas, a linda menina Nasceu a oito de setembro (Tirsri), primeiro mês civil dos judeus, no ano 734 de Roma e 21 antes da nossa era. À hora do seu nascimento seria ao amanhecer do dia de sábado).

            Nove dias depois, segundo os costumes dos israelitas, reuniram-se na casa de Joaquim para darem o nome ao novo rebento.

            O pai escolheu o mais belo nome, o mais sublime, que ainda combinaram as letras gregas do alfabeto, um nome que, só encerra um poema de inesgotável ternura.

            Este nome era Miriam (Maria), nome que em língua siríaca significa Soberana, e em hebraica Estrela do Mar.

            E como dar-lhe outro nome e que melhor explicasse a alta dignidade da Virgem que havia de encerrar no seu seio o Mártir do Calvário, o Salvador do Mundo?

            Vamos acompanhar a escolhida de Deus em nossos estudos até a sua glória, no céu, com Jesus.

Abril de 2004, comemorando o oitavo aniversário de morte do Arcebispo Crisóstomos Moussa Matanos Salama.

+ Dom José Faustino F

 

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RECOMENDAÇÕES

O povo foi à vinha que Deus escolheu à qual dedicou os maiores cuidados para que no tempo oportuno desse seu fruto: Jesus Cristo. Por esta razão, cercou-a e cuidou dela, cavou-lhe um fosso e erigiu uma torre em seu centro. Deus tinha feito tudo para a sua vinha: a plenitude dos tempos ia chegando. Jesus Cristo, fruto maduro de Israel, estava mais perto que nunca. Era iminente sua vinda.

Esse longo peregrinar do povo escolhido foi coroado por uma mulher. Nela chega ao cume à preparação que precedeu a vinda do Messias. Certamente, a história do povo de Israel esteve entretecida de obediência e rebeldia, mas a fé e a docilidade desta filha de Abraão foram mais notórias aos olhos de Deus do que a infidelidade do seu povo. Seu nome era MARIA e morava numa aldeota ignorada pelo Antigo Testamento: Nazaré da Galiléia.

Nela culmina a grande etapa do mundo, ao mesmo tempo em que em seu coração e em seu ventre se iniciam os primeiros tempos da era messiânica. Ela é o final glorioso de todas as etapas preparatórias à vinda do Salvador e o laço de união com o Novo Testamento.

Com Jesus, por Maria, conclamamos a todos que se sentem chamados ao ministério do Filho da Virgem a darem testemunho dos seus ensinamentos na Santa Igreja de Deus, Católica Ortodoxa, estudando e meditando sobre Maria, Rainha Medianeira e Mãe dos homens.

Lancemos nos braços de Maria, amando-a e imitando com o maior carinho. Invoquemos Maria, com a maior confiança para que ela defenda de todos os males e maldades nossa Santa Igreja, o Brasil e o mundo.

Com nossa benção.

 

Brasília-DF, 18 de abril de 2004, 8º aniversário de falecimento do nosso saudoso Pai espiritual o arcebispo Crisóstomos Moussa Matanos Salama.

 

+ Dom Leolino Gomes Neto.

 

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CAPÍTULO I

MARIA A REVELAÇÃO DA SANTÍSSIMA TRINDADE
 

1-        A PESSOA DE MARIA NO EVANGELHO

Evangelho: MT. 1,1-16; 20-23

Lc. 1,26-27; 30-32; 38

Jô. 1,1-4; 10; 14; 18

 

            O Evangelho de Jesus Cristo, narrado por Mateus, Lucas e João, no primeiro capítulo, lança as bases dos mais profundos mistérios da nossa fé cristã: A Unidade e Trindade de Deus, a Encarnação e a Redenção, aos quais é associada, com “vínculo indissolúvel”, a Maternidade divina de Maria, fundamento de todos os privilégios e prerrogativas da humilde Virgem de Nazaré.

            É a partir da revelação do Filho de Deus que procede do “seio do Pai” e se encarna no “seio de Maria”, e é através da Virgem Mãe que melhor podemos conhecer a Deus facilmente chegar até ele.

            O Caminho que o Pai escolheu para nos dar seu Filho é o mesmo que devemos tomar para chegarmos a Ele: “a Jesus por Maria”.

            De modo maravilhoso, entrosam-se os Evangelistas na revelação de Deus e na apresentação da Virgem de Nazaré.

            “““ “““ Deus se revela “no princípio”, em sua misteriosa eternidade, antes que existisse qualquer criatura, em sua intimidade, em sua vida por dentro entra” no seio do Pai” que gera “seu Filho unigênito”, “antes de todos os séculos”. “E do Pai procede o Espírito Santo”.

            É nossa profissão de fé: “Cremos em um só Deus, Pai todo poderoso... Cremos em um só Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos. Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai... Cremos no Espírito Santo, que é igualmente Senhor, origem da vida que do Pai procede. E com o Pai e o Filho é igualmente adorado e glorificado: Ele que falou pelos profetas e apóstolos (credo Niceno-Constantinopolitano).

            Maria, apresentada com a Virgem de Nazaré é a mesma de que fala, muito antes, o profeta Isaías: “Eis que a Virgem conceberá e dará a luz um Filho, ao qual será dado o nome de Emanuel”, que significa “Deus conosco. (Is. 7,14).

            Maria, que no Antigo Testamento aderiu ao único Deus verdadeiro, é convocada no Novo Testamento a dar sua adesão a este mesmo Deus, que é Uno e ao

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Mesmo tempo Trino: Uno na sua única divindade e Trino nas pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

2- MARIA E A FAMÍLIA DE ZACARIAS, ISABEL E JOÃO.

Evangelho: Lc 1,5-25; 36-37; 44-45

            Depois de apresentar Maria no seu relacionamento com a família Divina do Pai, Filho e Espírito Santo, o Evangelho mostra Maria voltada para a família de Zacarias, Isabel e João.

            Importa enfocar esta família com a qual Maria manteve o mais doce laço de amizade. Família privilegiada e agradável a Deus, escolhida como motivo de credibilidade da revelação feita a Maria.

            O Evangelista Lucas descreve a família amiga de Maria.

            Zacarias é “um sacerdote” judaico, “da classe de Abias”, constituída de muitos sacerdotes. Eram escolhidos por sorteios os quais deviam exercer funções especiais, como oferta do incenso, feitas duas vezes por dia, pela manhã e antes do crepúsculo.

            Isabel, sua esposa, parenta de Maria, é descendente de Arão. “Ambos eram justos diante de Deus”. Praticavam o bem e evitavam o mal, “levando vida irrepreensível de conformidade com os mandamentos e ordens do Senhor”.

            Experimentavam, porém, Zacarias e Isabel grande amargura: “Não tinham filhos, porque Isabel era estéril e ambos de idade avançada”.

            Aconteceu o melhor: Zacarias é sorteado para “entrar no santuário do Senhor e oferecer ali o incenso”.

            Apareceu-lhe, então o mesmo anjo da Anunciação ou Encarnação, Gabriel, que lhe anunciara a feliz notícia: “Não temas, Zacarias, porque foi ouvida a tua oração. Tua esposa Isabel te dará um filho e lhe porás o nome de João”.

            João, o filho ardentemente tão desejado, é a alegria de Zacarias e Isabel, e de muita gente. “Grande diante do Senhor”. Austero no comer e beber. “Cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe”, graças à mediação de Maria, conforme a afirmação de Isabel: “Pois, apenas soou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino saltou de alegria e meu ventre”.

            O filho de Isabel é o precursor do Filho de Maria, “preparando assim para o Senhor um povo bem disposto”. Arauto da Encarnação do Filho de Deus. Mensageiro do “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”; (Jô. 1,29).

03- MARIA CONCEBEU PELO ESPÍRITO SANTO

Evangelho MT. 1,18-25 Lc. 1,34-37

 

            Após a apresentação da família de Zacarias, Isabel e João, o Evangelho dá especial enfoque a Maria Sempre Virgem e o Espírito Santo.

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Focaliza a Virgindade Perpétua de Maria como uma intervenção extraordinária

 

Do Espírito Santo: “O Espírito Santo virá sobre ti” e “a Virgem conceberá e dará a luz um Filho”.

A Virgindade da Mãe de Deus é uma das verdades fundamentais da

Mariologia, verdade já anunciada muito antes do Evangelho, pelo Profeta Isaias, chamado protoevangelista: “Eis que a Virgem conceberá e dará a luz um Filho, ao qual será dado o nome de Emanuel”, nome que significa Deus-Conosco. (Is. 7,14).

            O Evangelista Lucas apresenta a Virgem Maria no mês relacionado com a gravidez de Isabel, sua parenta: Era já o “sexto mês” de gravidez “daquela que era chamada estéril”.

            Um fato concreto, capaz de ser provado pessoalmente por Maria e que lhe é comunicado como motivo de credibilidade dos acontecimentos maravilhosos que são revelados pelo Anjo da Encarnação.

            Gabriel aparece na Galiléia, à “Virgem” de “Nazaré”.

            Virgem toda especial, “desposada com um homem chamado José”, - tema que será tratado no próximo estudo.

            “O nome da Virgem era Maria”.

            O Anjo Gabriel, em nome de Deus Pai, pede a Maria o seu consentimento para ser a Mãe do divino Filho, Salvador do Mundo e Rei eterno do universo: “Eis que conceberás e darás a luz um Filho, a quem porás o nome de JESUS. Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu Pai Davi. Ele reinará eternamente sobre a casa de Jacó e seu reino não terá fim”. (Lc. 1,31-33).

            Maria é convidada para assumir a missão mais digna de que é capaz uma simples criatura: Ser Mãe de Deus, Mãe de um Deus Redentor, Mãe do Messias prometido, Mãe do Rei eterno do universo, único, na descendência de Davi, cujo “reino não terá fim”.

04- MARIA E JOSÉ

Evangelho: MT. 1,18-20; 24 Lc. 1,26-27

            Depois de focalizar Maria sempre Virgem e o Espírito Santo, que, com a intervenção extraordinária, entra na sua vida, conservando sua Perpétua Virgindade, o Evangelho destaca Maria e José, unidos indissoluvelmente como Esposa e Esposo, e também associados estreitamente, em família, ao mistério da Vida Redentora de Jesus.

            O pouco que o Evangelho fala de José é o suficiente para compreendermos sua grandeza, dignidade e autenticidade; sua sublime missão de Esposo da Mãe de Deus e Substituto do Pai Eterno junto de Jesus; sua participação valiosíssima no mistério do nascimento do Filho de Deus, concebido “por obra do Espírito Santo” no seio de Maria e feito Redentor do mundo; seu vínculo indissolúvel à História da Salvação do Povo de Deus.

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            Tudo isso coloca José à parte e no cume mais alto do rol dos santos, logo depois de Maria.

            Com Maria, José recebe o Filho de Deus Encarnado na Gruta de Belém;

Mostra-o aos pastores; dá-lhe o nome de Jesus; apresenta-o no Templo; coloca-o diante

Dos Magos; protege-o na fuga para o Egito; providencia sua volta para a Terra de Israel; procura-o aflito, em Jerusalém; convive com ele, sustenta-o com o suor do rosto; participam de sua educação, trabalho e vida oculta da Família de Nazaré, onde como

“Pai” comanda e Jesus como “Filho”, obedece: Jesus “desce com eles- Maria e José- e lhes era submisso”.  (Lc. 2,51).

            Cumprida sua missão de sombra de Pai Eterno, José não mais aparece no Evangelho e não o encontramos na vida pública de Jesus, a qual principia com sua manifestação, por intercessão de Maria, nas bodas de Cana, como o sinal patente do Messias tão desejado para a salvação do mundo.

            O Evangelho, aqui, enfoca Maria como “Uma Virgem desposada com um homem chamado José, da casa de Davi”.

 

05- MARIA A IMACULADA.

Evangelho; Lc 1,28

Lc. 1,42

I Tim. 2, 5-6

Gen. 2, 25

 

            Depois de termos contemplado Maria no seu relacionamento com a Família Divina do Pai, Filho e Espírito Santo; com a família de Zacarias, Isabel e João; com José seu esposo, apresentaremos agora a pessoa de Maria, em si mesmo, nos estudos 05 a 08, a saber: A Imaculada; A Serva do Senhor; A feliz porque teve fé; e aquela que glorifica o Senhor.

            Numa palavra, Maria na sua sublimidade de pessoa humana, de cristã perfeita, enriquecida de santidade, virtudes e privilégios divinos.

            Na ordem cronológica, o primeiro privilégio de Maria é a sua Concepção: Maria, a Imaculada.

            O Evangelho Lucas, em 1,28 e 42, lança os fundamentos da “Concepção” de Maria, na saudação Angélica e na exclamação inspirada de Isabel.

            Maria é a cheia de graça; “Ave cheia de Graça”.

            Maria é repleta da presença do Senhor: “O Senhor é contigo!”.

            Maria é “Bendita entre as mulheres”.

            O segundo capítulo de Gênesis nos apresenta Eva criada por Deus em justiça original, em santidade e inocência.

            Somente no terceiro capítulo o Gênesis fala da entrada do pecado no mundo. (Gen. 2,25).

            Se Maria é a “Bendita entre as mulheres”, a privilegiada de Deus, por excelência, ela suplanta Eva na justiça original e na graça santificante. É a “Cheia de Graça”, a “Repleta da presença do Senhor”: “Ave cheia de graça! O Senhor é contigo!”

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Eva sai das mãos de Deus inocente, pura, santa: “Adão e Eva estavam nus e não se envergonhavam”. (Gen. 2,25).

            Com maior razão, Maria, a “Bendita entre as mulheres”, por excelência,

Totalmente ilibada, puríssima, intacta, mais pura que os anjos, pura em todos tempos, a única plenamente pura, na afirmação dos Santos Padres Igrejas, é Imaculada desde a sua Concepção, conforme a doutrina revelada por Deus.

            A Concepção Imaculada de Maria é uma conseqüência da presença de Deus

Nela desde o primeiro instante da sua existência como pessoa humana, no seio materno “O Senhor é contigo!” É a presença de Deus em Maria que nela irradia a plenitude da graça: “Cheia de Graça!”.

            Assim, interpreta a Tradição da Igreja, falando daquela que é a redimida por excelência, em previsão da morte do seu Filho Redentor.

            “Maria foi de tal modo redimida pelo Filho de Deus Redentor, único mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem também que se entregou a si mesmo para a redenção de todos” (Tim. 2,3-6), que pecado jamais a tocou.

06- MARIA, A SERVA DO SENHOR.

Evangelho: Lc. 1,38-44; 56.

            Acabamos de contemplar Maria, a Imaculada.

            Como Imaculada, isenta de todo pecado, não deixar de ser também o que é agora. Vamos contemplar: Maria, a serva do Senhor.

            Jesus, “O Filho de Maria” é o “servo de Javé” que com seu próprio exemplo, deu o maior destaque ao espírito de serviço: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será o vosso servo, quem esperar a ser o primeiro no meio de vós, será o vosso escravo, a exemplo do Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate para a humanidade”. (Mt. 20,26-28).

            Assim, durante a ceia... levanta-se  da mesa, tira o manto, toma uma toalha e cinge-se com ela. Depois, coloca água na bacia e começa a lavar aos pés dos discípulos e enxugá-los com a toalha com que estava cingido... Quando, pois, acabou de lavar-lhes os pés, tomou as vestes, tornou a sentar-se e lhes disse: Entendeis o que fiz convosco? Vos me chamais de “O Mestre” e “o Senhor” e dizeis bem, porque eu sou. Se, pois, eu o Senhor e Mestre, vos lavei os pés,

Também vós deveis lavar os pés uns dos outros. “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu fiz, façais também vós”. (Jô. 13,2-15).

            Jamais alguém aprendeu tão bem e tomou tanto a peito a lição de Jesus, como Maria, sua Mãe.

            Maria foi, por excelência, a humilde serva do Senhor: “Eis aqui a serva do Senhor”. “Ela voltou os olhos para a humanidade de sua serva”. (Lc. 1,38 e 48).

            Toda a sua vontade, durante toda a sua vida, foi servir ao Senhor, colocar-se à tua disposição, com a maior disponibilidade, generosidade, abertura de coração: “Faça-se em mim conforme a tua palavra”.

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07- MARIA, FELIZ PORQUE TEVE FÉ

Evangelho: Lc. 1,45

 

            Vimos, precedentemente, Maria a Serva do Senhor.

            Agora a veremos transbordante de fé, contemplando: Maria, feliz porque teve fé. O mesmo anjo da Encarnação, Gabriel, apareceu, em nome de Deus, a Zacarias e a Maria. Mais o comportamento de um e de outro é diferente.

            É pelo comportamento, pela atitude, que podemos avaliar a fé de cada um.

            Zacarias, embora vivesse com Isabel em oração, implorando a graça de um filho, quando Gabriel lhe anunciou que sua “súplica foi ouvida” , ele não acredita. Sua atitude é a de um incrédulo, pelo menos seu comportamento é de uma pessoa que duvida. Exige logo um motivo de credibilidade: “Como terei certeza disto? “E dá o motivo de incredulidade: “Pois sou velho e minha mulher, avançada em anos”.

            Gabriel o repreende e dá-lhe o motivo de credibilidade pedido, mas castiga-o com a mudez, porque não acreditou: “Eu sou Gabriel que permaneço de pé diante de Deus e fui enviado para falar-te a anunciar-te a boa nova. Pois bem, ficarás mudo e não poderás falar até o dia em que se realizarem estas coisas por não teres acreditado nas minhas palavras”. (Lc. 1,8-20).

            Maria, pelo contrário, na sua simplicidade e candura, estava com o coração aberto para aceitar a palavra de Deus e colocar-se à sua disposição. “Faça-se em mim conforme a tua palavra”. (Lc. 1,38).

            Gabriel lhe dá também um motivo de credibilidade, dizendo que Isabel, sua parenta, recebeu igualmente uma graça extraordinária: “Eis que Isabel, tua parenta, concebeu também um filho na sua velhice; e ela, que era chamada de estéril, acha-se no sexto mês. Porque nada é impossível para Deus”. (Lc. 1,36-37).

            Maria está certíssima desta verdade: “Nada é impossível para Deus!”.

            Maria partiu com pressa ao encontro de Isabel, a quem podia dar grande ajuda na sua gravidez avançada de seis meses, sendo-lhe, ao mesmo tempo, fácil verificar com os próprios olhos a veracidade da palavra de Gabriel.

08- MARIA GLORIFICA AO SENHOR

Evangelho: Lc. 1,46.55

            Acabamos de refletir: Maria, feliz porque acreditou.

            Acreditar nos leva a louvar e agradecer ao Senhor, de quem precede todas as coisas. Por isso, contemplando a mais agraciada de todas as criaturas, veremos agora: Maria, aquela que glorifica o Senhor.

            É o “Magnificat” O canto mais belo e de conteúdo mais profundo da Bíblia.

            Nele, Maria se coloca na posição de simples criatura, louvando o Criador, que se digna de olhar para a “humildade da sua serva”.

            A humildade é o ponto alto do canto belíssimo de Maria.

            Deus resiste ao soberbo e exalta o humilde: “Manifestou o poder do seu braço, dispersou os que se orgulhavam no íntimo do próprio coração. Derrubou dos tronos os

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Poderosos e exaltou os humildes. “Saciou de bens os famintos e aos ricos despediu de mãos vazias”.

            A humildade evangélica que Maria exalta, é uma atitude fundamental dos autênticos discípulos de Jesus, seu Filho.

            O próprio Jesus se propõe como modelo da humanidade: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”. (Mt. 11,29).

09- MARIA, E SEU FILHO PRIMOGÊNITO.

Evangelho: Lc. 2,1-7 Mt. 2,1  e 3-5

            Até o presente, tratamos de Maria no seu relacionamento com a família Divina da Santíssima Trindade, com a família humana de Zacarias, Isabel e João, como o Espírito Santo e com José; e Maria em si mesma, como a Imaculada, a Serva do Senhor, a Bem-aventurada porque teve fé e aquela que glorifica o Senhor.

            Assim, Maria se preparou admiravelmente para trazer ao mundo o Filho de Deus Encarnado, podendo agora ser contemplada num dos momentos mais felizes da sua vida, ela “a humilde serva do Senhor”, dando à luz o Filho único de Deus: Maria e seu Filho Primogênito.

            Os Evangelistas Lucas e Mateus nos colocam diante de um fato concreto, com ricos pormenores.

            O Filho do Eterno Pai, verdadeiro Deus, entra na História dos homens ao nascer, verdadeiro homem da sempre Virgem Maria.

            O fato se deu no tempo de Cirino, governador da Síria, quando César Augusto ordenou, por decreto, o recenseamento de todo império.

            Cada pessoa devia recensear na sua cidade natal. Maria e José, ambos da estirpe de Davi, eram naturais de Belém na Judéia.

            Subiram, pois, de Nazaré, na Galiléia, até Belém da Judéia.

10- MARIA E OS PASTORES

Evangelho: Lc. 2,8-20

            Vimos precedentemente, Maria e o seu Filho Primogênito.

            Jesus nasceu no mais profundo silêncio, apenas adorado por Maria e José. Agora, veremos chegar de fora novos adoradores, abordando: Maria e os Pastores.

            O fato concreto do nascimento de Jesus, Salvador do mundo, que tanto alegrou Maria e José, seus primeiros adoradores, desencadeou novos acontecimentos, repletos uns do maior júbilo e outros de grande dor, como veremos nos estudos seguintes, focalizando simultaneamente os mistérios alegres e dolorosos da vida de Jesus, aos quais Maria se associou plenamente, com vínculo indissolúvel.

            Estamos diante da revelação dos profundos mistérios da Encarnação e da

Redenção do Filho de Deus as pessoas muito “simples”, humildes, disponíveis, dedicadas, de coração aberto, “pobres de espírito”.

            São sempre essas pessoas escolhidas por Deus para mensageiros da boa nova, da “misericórdia e ternura de Deus”;

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            Como aconteceu com Maria, a simples Virgem de Nazaré e a “humilde serva do Senhor”, assim foi com os pastores que “passavam a noite na guarda do seu rebanho”, num serviço muito simples e humilde, mas que exigia deles muita generosidade, dedicação, disponibilidade.

Do mesmo modo aconteceu sempre com os humildes e simples, “os amados “do Senhor, como Zaqueu e Mateus, Pedro e Paulo, Lázaro, Marta e Maria, Nicodemos e José de Arimatéia, a Samaratina e a pecadora de Magdala, o bom ladrão Dimas e o centurião da corte itálica, Cornélio.

            A escolha dos “Pastores” como os primeiros, vindos de fora, que “glorificaram e louvaram a Deus” na pessoa do seu Filho Encarnado, é patente a demonstração da predileção do Senhor pelos “pobres de espírito”, pelos humildes de coração, pelas pessoas simples: “Eu te louvo e agradeço, ó Pai do céu e da terra, porque ocultastes essas coisas aos sábios e aos sagazes e as revelastes aos simples”. (Mt. 11,25).

 

11- MARIA E A CIRCUNCISÃO DO SEU FILHO

Evangelho: Lc. 31, 2,21

MT. 1,20-21

            Acabamos de considerar, na alegria do nascimento de Jesus, Maria e os Pastores.

            Veremos, agora, se entrelaçarem os mistérios da alegria de Jesus com os adoradores, contemplando: Maria e a Circuncisão do seu Filho Jesus.

            Depois do nascimento do Redentor, que transbordou de alegria Maria, José e os Pastores. Passados oito dias, Maria levou com José o menino para a Circuncisão, dando-lhe o nome revelado pelo anjo Gabriel em nome de Deus: “Chegando o oitavo dia, no qual o menino devia ser circuncidado, foi-lhe dado o nome de Jesus”.

            Com a primeira gota de sangue da Circuncisão, misturam-se aos mistérios da alegria os mistérios da dor do Salvador do Mundo.

            Na Circuncisão, “o nome de Jesus” foi dado ao Filho de Deus feito homem, nascido da Virgem Maria, ao mesmo tempo, pelo Pai Eterno, por Maria e José.

            Em nome do Pai, o anjo escolheu o nome do Menino antes de ser concebido em Maria. “Foi-lhe dá o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido no seio materno”.

            Por sua vez, Maria recebe ordem de dar o mesmo nome ao menino: “Eis que conceberás e darás a luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus”.

            José, “esposo de Maria” e substituto do Eterno Pai, recebe igualmente a ordem: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa... Ela dará à luz um

“Filho, a quem porás o nome de Jesus”.

            “Jesus” significa “Salvador!” “Porque ele salvará o seu povo de seus pecados”.

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12- MARIA APRESENTA JESUS NO TEMPLO

Evangelho: Lc 22,38

            Vimos, precedentemente, Maria e a Circuncisão do seu Filho Jesus.

            Agora, continuando tudo que a lei do Senhor ordenou a respeito do Filho “Primogênito” contemplaremos: Maria e a apresentação de Jesus no Templo.

            O Filho de Deus, fazendo-se Homem e nascendo da Virgem Maria, torna-se semelhante a nós em tudo, exceto no pecado, e por isso submete-se à Lei a fim de nos conquistar a “dignidade e liberdade de filhos de Deus”.

            Como vimos no estudo 09, Jesus como “Filho Primogênito” de Maria Virgem, tinha direitos e deveres especiais.

            Por isso, “quando chegou o dia em que, segundo a Lei de Moisés, deviam ser purificados” Maria e José “levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresenta-lo ao Senhor, de acordo com o que está escrito na Lei do Senhor, um par de rolinhas ou dois pombinhos”.

            Era uma oferta que se fazia a Deus, reconhecendo-o com o Senhor de tudo, a modo do que se faz atualmente por ocasião do batizado de uma criança.

            O Evangelho de Lucas nos apresenta um profeta e uma profetisa: O profeta era “um homem chamado Simeão”. E a “profetisa Ana” era uma mulher de “oitenta e quatro anos”.

            Ambos se achavam no templo na hora da apresentação do Menino Jesus e exultaram de alegria, pela felicidade de contemplarem como os próprios olhos o Salvador do Mundo.

13- MARIA E OS MAGOS

Evangelho: MT. 2,1-12

            Acabamos de ver a apresentação de Jesus no templo.

            A profecia de Simeão nos abriu a grande perspectiva ecumênica, que começa a se concretizar nos não-judeus, como veremos agora: Maria e os Magos.

            O presente estudo, riquíssimo de ensinamentos, nos faz sentir, nas pessoas dos Magos, a realização da profecia de Simeão, relativamente à universalidade da salvação: Jesus, “o recém-nascido rei dos judeus”, “Luz que ilumina as nações”, é o Salvador de todos os povos”. (Lc. 2,31-31).

            A solenidade da Epifania do Senhor ou manifestação de Jesus a todos os povos, chamada de “Festa dos Reis Magos”, celebrada na Igreja universal, a 06 de janeiro, é antiguíssima e evoca a universalidade da salvação e revelação do Filho de Deus feito homem, nascido da Virgem Maria, a todas as nações, ao Mundo.

A Epifania é o dia em que comemoramos a nossa vocação de gentios à fé cristã. Nós, que não pertencemos à nação judaica, estamos incluídos no rol das outras “nações” e festejamos na Manifestação do Senhor o dia da nossa adesão a Jesus Cristo, “pela fé”, preparando-nos, nessa peregrinação terrestre para “contempla-lo um dia face a face no céu”. 

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14- MARIA E A FUGA PARA O EGITO.

Evangelho: Mt. 2,13-15

 

            Vimos no estudo precedente, Maria e os Magos.

            Nas pessoas dos ilustres astrólogos, vindos do Oriente à Palestina para adorarem “o recém-nascido rei dos judeus”, parece ser a universalidade da salvação, “a vocação dos gentios à fé, o tema central da Igreja primitiva no episódio dos Magos”.

            Em sua defesa surge o Anjo Gabriel, obedecendo aos desígnios da divina providência. “Depois que os Magos partiram, aparece a José um anjo do Senhor, dizendo: “Levanta-te, toma o menino e sua Mãe e foge para o Egito”.

            Aqui, aparece com destaque a figura de José, conforme o estudo 04, como substituto do Eterno Pai, junto do Filho de Deus encarnado, nascido da Virgem Mãe, sua esposa.

            “Assumindo a missão de chefe da Sagrada Família, como veremos no estudo 18, José se responsabiliza pela guarda e defesa do “Menino e sua Mãe”; tomando para si todas as providências, de acordo com a ordem do anjo:” Levanta-te, toma o menino e sua Mãe e foge para o Egito.

            José, como Maria, está também estreitamente associados aos mistérios da Encarnação e da Redenção de Jesus.

            Com fé admirável, aceita algo de incompreensível: “Toma o Menino e sua Mãe, e foge para o Egito”.

            Não é Jesus o Filho de Deus? O onipotente? Por que não esmagar seus inimigos?

            “Foge para o Egito”. Fugir? Fugir para uma região desconhecida? José não duvida da palavra de Deus e se dispõe a tomar parte generosamente no mistério da misericórdia divina, no mistério da Redenção do mundo que, depois da humilde pobreza da gruta de Belém, vai se avolumando com a primeira perseguição de Herodes. Padece o Menino, padecem Maria, José, todos três estreitamente associados aos insondáveis mistérios da salvação da humanidade, através da cruz que nos conquista a dignidade e liberdade de filhos de Deus.

            Anjo motiva José: “Porque Herodes procura o Menino para matar”.

            Mas, Herodes, por mais poderoso que pareça, como mortal criatura está nas mãos do Criador que, se quisesse o poderia fulminar.

            “Matar o recém-nascido rei dos judeus?” Por quê?

            Incompreensível mistério da Redenção! É o mistério da dor, do sofrimento, a respeito do qual todos nós indagamos constantemente, a toda hora: Por quê?

            Por que Jesus sofreu e morreu na cruz? Por quê?

Para Jesus, Maria e José, para todos nós, continua o profundo mistério da Redenção. É através da dor, do sofrimento, da cruz, que todos nós somos purificados, santificados, salvos.

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15- MARIA E A MATANÇA DOS INOCENTES

Evangelho: MT. 2,16-18

            Vimos precedentemente, Maria e a fuga para o Egito.

            Agora, veremos a matança dos Inocentes.

            Depois de se cumprir a profecia de Simeão, pela “espada” do exílio e da fuga para o Egito, a qual “transpassava a alma” de Maria, outra “espada” de dor amargura seu coração: a terrível matança de crianças inocentes, ocasionada pela vinda de seu Filho, “o recém-nascido rei dos judeus”.

            Herodes, ludibriado pelos Magos, que “volta por outro caminho”, enfureceu-se: “Quando Herodes notou que havia sido iludido pelos Magos, encheu-se de grande furor”, o que é propício de todo tirano presumido do seu poder, soberba e arrogância.

            A matança dos inocentes de Belém e arredores foi um episódio de horror para as suas desventuradas mães: “Verificou-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias: Ouviu-se um clamor em Rama, pranto e lamentação: Raquel a chorar seus filhos, sem permitir que a consolem, porque não existem mais!” (Jer. 31-15).

            O quadro é, deveras, doloroso: crianças inocentes degoladas e ceifadas à vista das próprias mães desoladas, que as acariciavam e amamentavam! “Rama foi um dos centros onde se reuniam os prisioneiros que seriam deportados para a Babilônia”, num doloroso exílio. “Segundo o Evangelho, análoga situação se repetia agora em Belém no

Sofrimento das mães, que viram seus filhos serem arrebatados e passados a fio da espada, “ouve-se um eco materno lamento de Raquel” , sofrendo, gemendo, lamentando-se pelos seus dois filhos, Benjamim e José, arrastados ao exílio da Babilônia.

 

16- MARIA VOLTA PARA A TERRA DE ISRAEL

Evangelho: MT. 2,19-23 Lc. 2,39-40

 

            Vimos, no estudo precedente, Maria e a Matança dos Inocentes.

            Veremos, agora: Maria e a volta para a terra de Israel.

            O presente estudo e os dois seguintes – Maria e a procura do Menino Jesus em Jerusalém, e Maria e a Sagrada Família de Nazaré- formando um todo, dão mais ênfase aos mistérios da alegria de Jesus, Maria e José, como o nascimento com os Pastores e os Magos, mas sempre interlaçados com os mistérios da dor, com a perda do Menino Jesus em Jerusalém, do mesmo modo que antes “transpassou a alma de Maria a espada” da fuga para o Egito e matança dos inocentes.

É que, “gemendo e chorando neste mundo de angústias”, em nossa peregrinação terrestre, não há rosas sem espinhos, nem vida sem morte, nem alegria sem dores, porque “sem a dor não se vive no amor” fonte de toda alegria.

            Os Evangelistas Mateus e Lucas nos transportam para a Galiléia, onde Jesus viverá cerca de trinta e três anos, fará seu primeiro milagre, pregara a boa nova da

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Salvação e escolherá seus primeiros discípulos e apóstolos.

            A “terra de Israel” naquele tempo correspondia à palestina.

            No tempo de Jesus, a Palestina estava dividida em três províncias: No sul, a Judéia, onde Jesus nasceu e morreu. No Centro, a Sumária, por onde Jesus passava rapidamente. E ao Norte, a Galileia, onde permaneceu quase toda a vida.

            Herodes, chamado o Grande, dominou toda a Palestina, mas chegada há sua hora, morreu: “Após a morte de Herodes”.

            O homem vem da terra e a terra voltará. Vive pouco. E com ele, morre sua maldade, crueldade, perseguição, perversidade e impertinência.

17- MARIA PROCURA O MENINO JESUS EM JERUSALÉM

Evangelho: Lc. 2,41-50

            Vimos precedentemente, Maria e a volta para a terra de Israel.

            Veremos, agora: Maria e a procura do menino Jesus em Jerusalém.

            Conforme o último estudo, por circunstâncias providenciais, Jesus, Maria e José fixaram residência em Nazaré, na Galileia, província da Palestina, aonde vai se

Desenrolar a maior parte dos acontecimentos da vida da Sagrada Família.

            O Evangelista Lucas, a partir do regresso do Egito para Nazaré, menciona um episódio rico de reflexões ocorrido na província da Judéia, em Jerusalém.

            Foi por ocasião da grande festa judaica, a Páscoa, e Jesus já estava com doze anos de idade: “Iam seus pais todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa, Quando Jesus completou doze anos, subiram, como de costume para a festa”.

            A Páscoa dos Judeus constituía a sua maior solenidade. Era comemorada anualmente, para louvar e agradecer ao Todo Poderoso os prodígios que operou em favor de seu povo eleito, a fim de o libertá-los da escravidão do Egito. Era, pois e comemoração da liberdade e independência do Antigo Povo de Deus. Como a nossa Páscoa Cristã, era “o dia que Deus fez”, por excelência, dia de vitória e alegria, em que comemoramos o triunfo da Ressurreição do nosso Divino Redentor, sua vitória sobre o pecado, a morte e o mundo. Vitória que conquistou para o Novo Povo de Deus “a dignidade e liberdade de filhos de Deus”, com direito à participação, um dia, “como herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” da glória eterna, na visão face a face do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

18- MARIA E SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ

Evangelho: Lc. 2,51-52

            Vimos no estudo precedente, Maria e a procura de Jesus em Jerusalém.

            Agora, veremos: Maria e a Sagrada Família de Nazaré.

            Tema riquíssimo em ensinamentos, de muita atualidade, enfatizando a Família Modelo aqui na terra.

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            O último estudo nos deixou a observação de Lucas: “Mas eles – Maria e José não compreenderam o que Jesus lhes disse”

            Apesar de não se sentir compreendido pro Maria e José que, “comovidos” e “aflitos” o procuram durante três dias, até encontrá-lo no meio dos doutores no Templo de Jerusalém, Jesus “desceu, então, com eles de volta para Nazaré”.

            Era o ótimo Filho que, sem discutir, volta com os pais para a casa em Nazaré, na Galileia.

            E, com pouquíssimas, mas expressivas palavras, o evangelista resume a atitude de Jesus durante cerca de trinta anos ao lado de Maria e José, na Sagrada Família de Nazaré: “E era-lhes submisso!”

            O mistério do Criador, o Filho de Deus, o Todo-Poderoso, o Mestre e Senhor de todos, curvando-se diante de duas criaturas, submetendo-se a Maria e a José: “E era-lhes submisso!”.

            Na Redenção dos homens, perdidos pela própria desobediência, a obediência do Divino Salvador a simples criaturas, até a morte de cruz., é o que há de mais profundo e misterioso: Jesus, “existindo com natureza de Deus, não reteve para si com ciúme o ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a natureza de

Escravo e fazendo-se semelhante aos homens; e sendo obediente até a morte de cruz!”(Flp. 2,6-8).

            Com sua atitude de obediência a Maria e a José, Jesus patenteia o sagrado dever do filho de obedecer aos pais, de “honrar pai e mãe”.

            Jesus, obediente, “submisso a Maria e José”, foi patenteando a todos sua educação, seu desenvolvimento admirável: Quanto a Jesus, crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.

 

19- MARIA E O PRIMEIRO MILAGRE DE JESUS.

Evangelho: Jo. 2,1-11

            Vimos no último estudo, Maria e a Sagrada Família de Nazaré.

            Veremos, agora: Maria e o primeiro milagre de Jesus.

Continuaremos, aqui, apreciando o espírito de família. Desta vez, na família dos noivos de Canaa da Galileia.

            Jesus ia começar seu ministério público, enquanto João Batista acabava de dá-lo a conhecer aos seus discípulos: “Eis o Cordeiro de Deus! Aquele que tira o pecado do mundo!” (Jo. 1,19).

            Jesus escolheu seus primeiros apóstolos: André e Simão Pedro, Felipe e Natanael. (Jo. 1,40-51).

            Três dias depois, realiza-se um casamento na Galileia, na Cidade de Canaã, pouco distante de Nazaré.

            Maria é convidada, como também Jesus e seus primeiros discípulos: “Realizaram-se, ao terceiro dia, uma boda em Canaã da Galiléia e lá estava a Mãe de Jesus. Foram também convidados à festa Jesus e seus discípulos”.

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            Aqui, é patente o espírito de abertura da Sagrada Família de Nazaré.

            Evangelho silencia, nesta altura dos trinta anos, mais ou menos, de Jesus, José já falecera. São mencionados apenas Jesus e Maria.

            Estes deviam ser muitos conhecidos da família de Caná, para serem convidados à festa e até poderem levar os discípulos.

            A abertura numa família é algo fundamental.

            O Deus que servimos e adoramos não é um Deus egoísta, mas um Deus único na Trindade das Pessoas do Pai, Filho e Espírito Santo, como vimos no primeiro estudo.

            Um Deus aberto: doação, comunicação e participação.

            E o homem criado á imagem do Deus Une e Trino, é por natureza, um ser social, aberto para os outros: para o Grande Outro, que é Deus, e para todos os outros que são sua imagem viva, nas pessoas de nossos próximos.

            Maria, com seu espírito de abertura, devia conhecer muitas famílias, mantendo com elas laços de delicada e autêntica amizade, a exemplo do que vimos na sua atitude cordial com a família de Zacarias, Isabel e João, conforme o estudo 02.

            Maria até conhecia a intimidade desse lar, chegando a perceber que, com a afluência dos convidados, os nubentes não tinham mais vinho para tanta gente e iriam passar por um vexame.

            Resolve, então, com Medianeira, advogar por eles junto ao seu divino Filho: “Estando para acabar o vinho, a Mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho”.

20- MARIA, FELIZ PORQUE OUVIU A PALAVRA DE DEUS E A PRATICOU.

Evangelho: Lc. 8,19-21.11,27-28

MT. 12,46-50

            No estudo precedente, vimos Maria e o primeiro milagre de Jesus. Contemplaremos agora: Maria, feliz porque ouviu a palavra de Deus e a praticou.

            Terminando o último estudo enfatizando a máxima de Maria relativamente à nossa atitude diante de Jesus: “Fazei tudo o que ele vos ordenar”. (Jo. 2,5).

            Saindo do ambiente festivo da família dos noivos de Cana que celebram seu casamento, entramos no grande ambiente da família espiritual de Jesus, quando ele falava a esta junto ao lago de Ganazaré ou Tiberíades, também chamado “mar da Galiléia”, por suas ondas constantes, levantadas pelos ventos fortes da região.

            É nesse cenário maravilhoso e agradável que Jesus intensifica a pregação da boa nova, trazendo fé, esperança e amor, paz, alento e confiança às multidões sedentas da palavra de Deus.

            Nesta altura, é provável que, a fim de facilitar a pregação do Evangelho junto ao “mar da Galiléia”, Jesus já tivesse se transferido de Nazaré para Cafarnaum, as margens do mesmo “mar” ou lago. Os três evangelistas, Mateus, Marcos e Lucas

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Falam da enorme família espiritual à “grande multidão”, construída por todos aqueles que “ouvem a palavra de Deus e as põe em prática”.

            Há grande dificuldade de interpretação em nosso idioma, da linguagem bíblica relativa a “irmãos”.

            Nos tópicos evangélicos, acima citados, para nosso estudo, Jesus emprega a palavra “irmãos”, não no sentido comum de consangüinidade, mas no sentido espiritual: “Meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a põe em prática”.

            Usando os nomes que nos são mais caros, de mãe, irmãos e irmãs, Jesus nos dá lição profunda para nossa vida prática: “Quem é minha mãe e quem é meus irmãos?”.

            “Estendendo a mão sobre os discípulos e olhando para os que estavam sentados à sua volta, disse Jesus: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos. “Porque todo aquele que faz a vontade do meu Pai que está no céu, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

            Jesus proclama assim o princípio fundamental da salvação de toda humanidade, até mesmo de um índio inculto ou de um pagão que desconhece, sem culpa, qualquer forma de religião.

            O caso do pagão, “em Cesárea, de nome Cornélio, centurião da corte itálica”, é esplêndido comentário desse princípio básico de salvação, conforme já falamos no estudo 13, quando “Pedro tomou então, a palavra e disse: “Em verdade, agora compreendo que Deus não faz distinção de pessoas, mas todo aquele que teme e pratica a justiça lhe é agradável, seja do que povo for”. (At. 10,34-35).

            Maria, discípula sem igual do seu divino Filho, aprende, assimila, vive e transmite esse privilégio como ninguém: “Eis aqui a Serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra, fazei tudo o que ele vos disser”. (Lc. 1,38 Lc. 2,5).

21- MARIA, JUNTO À CRUZ DE JESUS

Evangelho: Jo. 19,25 Lc. 1-38

            Vimos precedentemente, Maria, feliz porque ouviu a palavra de Deus e a praticou.

            Contemplamos, agora: Maria, junto à cruz de Jesus.

            Este estudo está estreitamente ligado ao anterior e ressalta Maria aceitando a vontade de Deus no momento mais doloroso e heróico de sua vida, vinculado indissoluvelmente ao Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Redentor do mundo.

            O Evangelista João, o único, dentre os apóstolos, que acompanhou Jesus até o Calvário, é quem relata o heroísmo sem igual de Maria, “de pé, junto à cruz de Jesus”.

            Maria, como Mãe amorosíssima, vinha seguindo, passo a passo, instante a instante, o caminho doloroso do seu divino Filho, até o momento culminante da Redenção do mundo, quando ela imola, juntamente com o Pai, o próprio Filho, para a salvação da humanidade.

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Maria, com “a alma transpassada pela espada” (Lc 2,35) da dor mais cruel, acompanha todas as circunstâncias da Paixão e Morte de seu amado Filho, nos seus menores detalhes.

            Maria viveu intensamente o cruel drama da Redenção.

            Não fugiu da espada “de dor do Calvário”.

            Heroicamente, “de pé junto à cruz de Jesus”, enquanto o Filho pendia, se oferecia e se imolava, como Sumo e Eterno Sacerdote, qual “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, e o Pai também o imolava para a salvação da humanidade, Maria, plena e perfeitamente amadurecida para enfrentar o Mistério da Redenção, juntamente com o Pai o imola por todos nós.

            Maria une suas lágrimas e sofrimentos ao Sangue Redentor de seu Divino Filho, como os dois rios, embora desiguais misturassem suas águas salvadoras no imenso oceano da Redenção do mundo saindo um do “Coração de Jesus rasgado pela lança do soldado” (Jo. 19,34), e o outro da “alma de Maria, transpassada pela espada” (Lc. 2,35) da amargura, a fim de salvar a humanidade.

            Tanto do coração aberto de Jesus quanto da alma transpassada de Maria jorram torrentes de graça, para a Redenção do mundo inteiro.

22- MARIA, MÃE DA IGREJA

Evangelho: Jo. 19,25-27

            Acabamos de ver Maria de pé junto à cruz de Jesus.

            Nunca estreita ligação com o estudo precedente, contemplaremos agora: Maria, Mãe da Igreja. É a maternidade Espiritual de Maria.

            Em meio a dores terríveis, muito maiores que as dores do parto, a Mãe de Jesus, “de pé, junto à cruz”, assistida por extraordinária força do Espírito Santo, imola com o Pai o Filho Único, para a Redenção de toda a humanidade.

            O Evangelista João, testemunha ocular do fato, narra o episódio enternecedor de Jesus, - embora no ambiente mais adverso e nas circunstâncias mais dolorosa e cruel – atento à Virgem Mãe, Senhora das Dores, Rainha dos Mártires.

            “Vendo sua Mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse Jesus a sua Mãe: “Mãe, eis aí o teu Filho”.

            José, o esposo de Maria, já tinha entregue a Deus seu espírito nos braços de Jesus e Maria.

            Agora, Jesus, prestes também a entregar ao Pai o seu espírito e ser recebido nos braços da Mãe Santíssima, a Senhora das Dores, quer antes resolver a situação de Maria.

            Maria não ficará só!

            Viúva e sem outro Filho senão Jesus, como vimos no estudo 09, a Virgem Mãe de Nazaré recebe na pessoa do Apóstolo João, um filho espiritual: “Mãe, eis ai teu Filho!”.

            Há no testamento de Jesus, primeiro, um sentido literal importante: Maria sua querida Mãe, não ficará desamparada. Maria sem outros filhos que, pela lei natural

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 Estariam obrigados a cuidar dela, Jesus lhe dá um filho espiritual, com quem poderá morar dentro da maior segurança e proteção, pois, João, “o discípulo a quem amava” mais, era a pessoa de sua confiança.

            Mas, além desse sentido literal, a Tradição interpreta a palavra de Jesus também num sentido mais amplo.

            “Na pessoa do “discípulo amado” estamos representados todos nós, toda a humanidade como Jesus dissesse: “Mãe”, Mãe de tantas dores, Mãe com a alma transpassada pela espada” de tão grandes sofrimentos, Mãe vinculada indissoluvelmente à Redenção da Humanidade, Mãe co-redentora de todos os homens, “eis ai teu filho” espiritual e, na pessoa dele, todos os filhos espirituais de todo mundo habitado, que “te proclamarão bem-aventurada de geração em geração”.

            Em algumas traduções da Bíblia ao invés de “Mãe, eis aí teu Filho”, encontramos: “Mulher, eis aí teu Filho”.

            Jesus poderia ter dito: “Minha Mãe” – palavra tão mais suave e carinhosa -, prefere dizer: “Mãe”, como se dissesse: de agora em diante, não serás apenas minha mãe, mas também Mãe espiritual de todos os homens, especialmente daqueles que hão de crer em mim, como um Dimas.

            Jesus amplia, assim, a Maternidade de Maria, dando-lhe uma nova dimensão, a dimensão espiritual, a Maternidade Espiritual: “Eis aí teu Filho!”

            Maria, em meio a dores superiores às do parto, gera tantos filhos quantos são todos aqueles que crêem no seu Divino Filho.

            Maria, com sua Maternidade Espiritual, “a Mãe de Deus, a Mãe de Cristo”, torna-se, “na economia da graça”, Mãe da Igreja, Mãe de cada cristão, Mãe de toda a humanidade, chamada a se tornar membro do Corpo Místico de Cristo do qual ele é a Cabeça.

            Por isso, depois, disse Jesus ao discípulo: “Eis ai tua Mãe”

            Maria mesma continuará repetindo a todos nós, servos de Cristo, o que disse aos servidores de Cana: “Fazei tudo o que ele vos ordenar”. (Jo. 2,5).

23- MARIA, NO CENÁCULO DE JERUSALÉM

Evangelho:  Lc. 24, 46-52 At. 1, 4-5; 8; 12-14

 

            Vimos, no ultimo estudo, Maria, Mãe da Igreja.

            O presente estudo, Maria no Cenáculo se prende ao anterior e ao seguinte.

            Contemplando a Maternidade Espiritual de Maria, vimos que ela é a Mãe da Igreja.

            Por isso, no nascimento da Igreja no Cenáculo e na sua proclamação em Pentecostes, não poderia faltar à figura feminina de Maria.

            Jesus, durante cerca de três anos, formou o pequeno grupo que seria embrião e, mais tarde, as colunas da sua Igreja, nas pessoas dos apóstolos, testemunhas “cheias da força do Espírito Santo”, testemunhas, portanto qualificadas da sua Ressurreição.

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            “Para ocupar o posto deste ministério e apostolado que Judas abandonou para ir ao lugar destinado”, os onze sortearam Bársabas e Matias, “e a sorte caiu em Matias, que assim foi associado aos onze apóstolos” (At. 1,23-26).

Os doze ficaram então sendo: Pedro e André; João e Tiago, Filipe e Tomé; Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu; Simão e Zelote, Judas filho de Tiago e Matias o sorteado no lugar do Iscariotes.

            Todos estes “acompanharam Jesus durante todo o tempo da sua permanência “(At. 1,21) no grupo ou colégio apostólico, sendo constituídos os primeiros Bispos da Igreja de Cristo.

            Eram os que o conheciam bem e podiam ser “testemunhas qualificadas da sua Ressurreição”.

            As últimas palavras de Jesus aos apóstolos foram em Betânia, no monte das Oliveiras: “Assim está escrito que o Cristo devia padecer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que em seu nome seria anunciada a todas as nações a conversão em vistas do perdão dos pecados, a começar de Jerusalém. Disto sereis testemunhas. Permanecei na cidade de Jerusalém até que sejais revestidos do vigor do alto”.

            “Levou-os para Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. E, enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi-se elevando para o céu”. Foi o momento precioso da Ascensão de Jesus pelo próprio poder, pela sua própria divindade.

            “Quantos a estes – os apóstolos – voltaram cheios de alegria para Jerusalém”.

            Os Atos, ligando os acontecimentos, acrescentam: “Quando o Espírito Santo descer sobre vós recebereis uma força, e então sereis minhas testemunhas em Jerusalém, na Samaria e por toda parte, até os confins da terra”.

            Maria, indissoluvelmente vinculada a todos os mistérios da Vida, Paixão e Morte de seu Filho, com “a alma transpassada pela espada” dos maiores sofrimentos, desde a Anunciação ata o Calvário, dele não poderia se desligar nos momentos culminantes de sua glória, na Ressurreição, Ascensão e Pentecostes.

            Estes fatos – Ressurreição, Ascensão e Pentecostes – precisavam ficar indubitavelmente comprovados por testemunhas insuspeitas, escolhidas especialmente por Deus, a fim de serem transmitidos como os mais sólidos e irrefutáveis motivos de credibilidades.

            Como Maria é Mãe de Jesus, - embora seja a mais preciosa de todas as testemunhas, por conhecê-lo muito bem e tê-lo acompanhado em toda sua vida, durante cerca de trinta e três anos – os evangelistas a colocaram a parte, porque, em princípio, mãe pode ser suspeita quando testemunha em favor do próprio filho. Por ironia, mãe é apelidada de “mãe coruja”, porque esta acha sua feia corujinha em encanto de beleza.

            Entanto, Lucas sublinha a presença de Maria, tanto no Cenáculo como em Pentecostes: “Todos eles, na maior íntima união, oravam constantemente, juntos com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus”.

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24- MARIA, EM PENTECOSTES

Evangelho: At. 1,14-15; 2,1-4.

            Vimos precedentemente, Maria no Cenáculo de Jerusalém.

            Com a “assembléia de cento e vinte pessoas aproximadamente”, Maria se preparava para Pentecostes.

             “Por isso, estreitamente ligada ao último estudo, contemplamos”, agora, Maria em Pentecostes.

            Trata-se de um fato de suma importância para a nossa fé, na totalidade.

            A paixão do Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, (Jo. 1,29) é inseparável da sua Morte. Sua morte não tem sentido sem a Ressurreição. Sua Ressurreição, após suas aparições durante quarenta dias, e seguida da sua Ascensão. Sua Ascensão, ou volta para junto do Pai, é acompanhada, dez dias depois, pelo esplêndido acontecimento de Pentecostes, quando o Pai e o Filho derramam o Espírito Santo sobre a Igreja nascente.

            Pentecostes é uma palavra de origem grega, que quer dizer cinqüenta dias, isto é, o fato da descida do Espírito Santo, sobre a “assembléia de cento e vinte pessoas aproximadamente”, realizou-se precisamente cinqüenta dias após a Ressurreição do Senhor.

            “O Evangelista Lucas, nos Atos dos Apóstolos, descreve com ricos promissores o acontecimento de Pentecostes e destaca, na “assembléia de cento e vinte pessoas aproximadamente”, Maria, a Mãe de Jesus”.

            A “Assembléia” era formada pelos discípulos fiéis ao Senhor, dos seus autênticos seguidores, que naquele momento constituem a Igreja nascente.

            É a Igreja grande sacramento, sinal sensível da presença invisível de Deus no mundo, idealizada pelo Pai, realizada pelo Filho e assistida pelo Espírito Santo, e por isso: “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. (MT. 16-18).

            “Estavam todos reunidos no mesmo lugar”, inclusive “Maria, a Mãe de Jesus”.

25- MARIA, SUA DORMIÇÃO E SUA GLÓRIA

Evangelho: Lc. 1,46. -4 Ap. 12,1.

 

            Vimos, precedentemente, Maria em Pentecostes.

            Assim, Maria se associou, com “vínculo indissolúvel”, a todos os mistérios de seu divino Filho, desde o momento em que foi concebido no seu ventre virginal, na maior humildade, até o momento da sua gloriosa Ressurreição e Ascensão ao céu, de

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Onde, com o Pai, enviou o Espírito Santo sobre os apóstolos, os discípulos, a Igreja nascente, com a intercessão da Virgem Maria: “Oravam constantemente, junto com algumas mulheres, entre elas Maria, a Mãe de Jesus” (At.1,14).

            Agora, contemplamos: Maria, sua dormição, sua glória.

            É a vitória plena de Maria, a recompensa de sua sublime missão de Virgem Mãe: da Igreja, de Jesus e de cada um de nós.

            A Dormição e glória de Maria estão associadas à Ressurreição e Ascensão de Jesus, com a diferença de que Jesus, na sua Ascensão, sendo verdadeiro Deus, se eleva por sua própria força divina, enquanto Maria, na sua “dormição e glória”, é levada, carregada pela força do Onipotente: “O Onipotente fez em mim grandes coisas!”

            De fato, entre as grandes coisas que Deus operou em Maria, refulge a sua dormição e a sua glória.

            Maria que se associou aos mistérios da alegria e da dor do seu divino Filho, na dureza da sua peregrinação terrestre, não podia deixar de acompanhá-lo nos mistérios da Glória da vida eterna.

            Maria Não poderia, pois deixar de acompanhar Jesus na sua glória.

            Na verdade, não se sabe nada da morte de Maria, nem a data nem o lugar. Certamente se excetua o (sinal) da Mulher e o dragão, que é objeto do capítulo 12 do Apocalipse de São João, de onde se permite em reconhecer uma imagem do destino final da Mãe do Messias, no Novo Testamento não contém citação a Assunção da Virgem Maria.

            Um texto atribuído a Militão de Sardes (século II), intitulado “Transito de Maria” descreve uma tumba nova, ao Oriente de Jerusalém: na entrada do vale de Getsemani, onde Pedro, seguindo ordens de Jesus, havia depositado o corpo e não o cadáver. Sinal de que a corrupção não podia alcançar aquele que foi receptáculo de Verbo encarnado, daí a expressão de Dormição.

            Maria, portanto, não poderia deixar de participar da tríplice vitória de seu Filho, Redentor do mundo: Vitória sobre o pecado pela sua impecância; vitória sobre aconcupiscência pela sua integridade absoluta; vitória sobre a morte pela sua Ressurreição e Ascensão.

26- JÁ NO CÉU, COM JESUS: MARIA

Evangelho: “O Onipotente fez em mim grandes coisas! Santo é o seu nome”.

                           Lc. 1,49

Com Jesus Ressuscitado, o dom do amor deificante de Deus já se realizou plenamente também em Maria Santíssima. A bondade, a ternura de Deus quis associar intimamente à vida de seu Filho Encarnado a uma Mulher: a Toda Pura.

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Remida antecipadamente pela Paixão divina do Filho, (.), em vista de sua maternidade, Maria Santíssima é a Imaculada, a sempre virgem, a Mãe de Deus: da carne e do sangue puríssimo de Maria se formaram a carne e o sangue do Deus feito homem.

O seu "sim" pronunciado como humilde serva do Senhor, no momento da Encarnação, ela sempre o repetiu seguindo fielmente o Filho em todos os mistérios de sua vida, abrindo o coração a tesouros insondáveis de beleza e de graça. A virgem está situada no ponto culminante da santidade da Igreja, sua virgindade de amor a Deus exprime a realidade do Reino. Ela é a humilíssima, Ela é a sarça ardente, é o tálamo do Sanctus.

Na Mãe de Deus a natureza puríssima que levou em seu seio o Verbo entrou em união perfeita com a divindade. São Gregório Palamás vê em Maria a pessoa criada que une em si todas as perfeições: a realização absoluta da beleza da criação: "Desejando criar uma imagem da beleza absoluta e claramente manifestar aos anjos e aos homens o poder de sua arte, Deus fez Maria verdadeiramente toda bela. Nela reuniu as belezas parciais distribuídas pelas outras criaturas e a constituiu como ornamento comum de todos os seres visíveis e invisíveis; melhor, Ele fez de Maria uma mistura de todas as perfeições angélicas e humanas, uma beleza sublime que enfeita os dois mundos, erguendo-se da terra ao céu e superando este último". "Ela se acha no limite do criado com o incriado "Maria é a "semelhantíssima", aquela que mais se assemelha à imagem divina, ao Verbo Encarnado; e, por conseguinte, aquela que pode ser o modelo de imitação.

Depois de seu Filho divino, a Virgem Maria é a primícia, (...). Ela é a primeira pessoa humana que já realizou plenamente o fim último para o qual Deus criou o mundo. N'Ela a Igreja e todo o universo já atingiram a sua realização, que abre o caminho da deificação para as outras criaturas. Ela é o guia que precede a humanidade, e todos a seguem. Contemplando-a, a Igreja lhe canta: "Alegra-te, ó Coroa dos Dogmas" Por isso Maria Santíssima é o coração da Igreja, o seu centro místico, sua perfeição já consumada.

E como "não existe nada mais divino do que a bondade e a misericórdia" (São Gregório Nazianzeno), com seu Filho divino, Maria Santíssima, que está toda em Deus, é de Deus e para Deus, tornou-se espelho e canal da bondade e misericórdia de Deus para os

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Homens. Agora, livre dos condicionamentos temporais, Ela preside aos que vêm após Ela e lhes dá os bens eternos. É por Ela que os homens recebem a graça. . Nenhum dom é recebido pela Igreja sem a assistência da Mãe de Deus, (que preside aos destinos da Igreja e do universo). 

Ela é a Tesoureira da misericórdia de Deus: a sua proteção materna, que envolvia o Menino Jesus, cobre agora a humanidade e todos os homens. Por isso, ela é invocada como baluarte e advogada dos cristãos.

E como "Orante" Maria prefigura o ministério da oração e da intercessão. Ela é a Esposa que, com o Espírito Santo, invoca: "Vem, Senhor Jesus!" (cf. Ap 22,20).

Depois de Cristo, já no céu, com seu Filho, Maria é a plena transfiguração e deificação da pessoa humana.

E, passando do plano ontológico ao simbólico, Maria, Esposa do Espírito Santo, recebeu, além disso, uma função que a faz extraordinariamente amável: Ela é o sorriso, o ícone, o rosto do amor de carinho materno de Deus. A Mãe de Deus que, amorosamente, leva nos braços o Menino Jesus, é "a Eleusa", a imagem da ternura indizível entre o divino e o humano, a imagem do amor materno de Deus a cada um e a cada uma de nós (cf. Is 49,15).

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      CAPÍTULO II

      MARIA E A IGREJA

            Apesar de não se falar muito dela nos Evangelhos, Maria é o tecido vivo da Igreja tradicional, tanto na Católica Ortodoxa como na Católica Romana. E, para compreender seu mistério, é preciso que se compreenda quem foi Eva, nossa primeira mãe, de quem Maria é a réplica celestial. E pode-se compreender Maria sem compreender a Igreja? Tudo o que é dito de Maria se aplica a Igreja e, por traz de Maria e da Igreja, está misteriosamente, esta sabedoria dançante, rejubilando-se ante o Criador “Sophia”, a “Sapiente” de que fala o Antigo Testamento.

            A maternidade encerrada “algo” que vem de baixo, da matéria, para sublimar, se abrir, caminhar ao encontro da Graça, como um cálice recebendo a vida. Este “algo” canta a Igreja sob o mais alto do que os Querubins, incomparavelmente superior aos Serafins. A mulher em sua profundidade metafísica e, na verdade, a junção de Deus com nada, um nada que, por obediência à vontade de Deus, responde-lhe. Ou melhor, um vazio que pede e que ecoa a palavra.

            Pode-se ter uma visão completa das coisas se o elemento feminino for eliminado? É verdade que São Paulo diz que “nem homem nem mulher, nem grego, nem judeu”, porém, Cristo que tudo recapitulou era, apesar de tudo, um homem. Era necessário um complemento fêmeo. Onde está à consciência da Igreja, o sentimento de unidade cósmica do mundo que será salvo. É claro que o lugar de Maria é diferente do lugar de Cristo, que Ele é Deus encarnado e ela é o ser humano divinizado: mas quando Cristo sobe ao Pai, Ele não nos deixa somente a Igreja, através de pessoa de João: ele nos dá uma mãe: “Eis aqui Tua Mãe”.

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CAPÍTULO III

          MARIA NA IGREJA ORTODOXA

         Kalistos Ware, bispo grego-ortodoxo

            Durante toda sua história, os cristãos ortodoxos viram a Virgem Maria em ligação com o Filho, e nunca separada dele. A palavra chave que indica seu lugar no mistério da encarnação é Theotókos: ou seja, em grego “aquela que gerou Deus” ou “Mãe de Deus”. A expressão foi usada em 431 pelo Concílio de Éfeso, chamado a definir de maneira clara que Cristo é verdadeiro Deus é verdadeiro homem, e não simplesmente um homem estreitamente associado a Deus. Para proclamar esta verdade, os padres de Éfeso declararam que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus.

            Com isso, não se conferiu a Virgem um título meramente devocional: a expressão Theotókos proclama uma verdade-base da fé cristã: Aquele que nasce de Maria é único indivíduo (segunda pessoa da Santíssima Trindade) dotado de natureza divina e de natureza humana. Eis, portanto, explicada a devoção ortodoxa a Virgem Maria: eles veneram-na porque Mãe de Cristo, o qual é o Emanuel (Deus conosco) através da encarnação. A honra que assim lhe prestam é na realidade prestada ao Filho.

            Refletindo depois na encarnação, descobre-se outro fato respeitante a Maria, e outro motivo para honrá-la. Descobre-se que na Anunciação Ela só se torna Mãe de Deus com o seu consentimento voluntário: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Encontramos, portanto proclamada aqui a grande verdade do livre arbítrio humano, dado por Deus ao homem no ato da sua criação, para ter depois do homem uma resposta de amor. Mas sem livre arbítrio não pode haver resposta de amor, não existir autêntica aceitação ou recusa de um convite. Deus, em suma, pede-nos uma colaboração completamente voluntária, e Maria é o exemplo supremo desta colaboração, livremente escolhida. Só depois do seu consentimento se realiza a encarnação.

            Eis-nos chegados aos mistérios da Igreja: Cristo deu - no-la como meio para realizar o designo divino de salvar o gênero humano. Fazer parte da Igreja (o corpo de Cristo) significa, portanto, ser chamado a cooperar para que se realize tal projeto: ou seja, fazer nossa a vontade divina. E também aqui se encontra em Maria o modelo perfeito, com o seu livre e franco “sim”.

            Certamente, com isto, nenhum ser humano adquire uma natureza divina; nem sequer Maria, já que só as Pessoas da Trindade são Deus. Daí que os ortodoxos

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Insistem na diferença entre latria (adoração devida unicamente a Deus) e dulia, uma

Espécie diferente de veneração prestada a Mãe de Deus e aos Santos. Ela está mais próxima do Senhor do que qualquer outro ser humano; mas nunca A vemos distante, separada da humanidade. Por um lado, Maria mostra-nos como, para além dos aspectos exteriores, a vida quotidiana vem a ser santificada pela graça. Por outro lado, o seu

Grau de “participante da natureza divina” é de tal maneira único, a ponto de fazer d’Ela o orgulho da natureza redimida. Como diz um hino ortodoxo: Maria é o dom mais idôneo que se possa fazer chegar a Cristo das fileiras da nossa humanidade decaída.

            Dirigindo-se a Maria, pedimos-Lhe continuamente que ore por nós. Por quê? A esta pergunta os ortodoxos respondem que a Igreja é uma grande família, de que fazem parte quer os vivos quer os mortos; uma família unida um Cristo. E esta unidade realiza-se e exprime-se através da oração. Orar uns pelos outros, reciprocamente: eis uma característica essencial de pertença à Igreja. Ora, vimos que Maria é modelo perfeito desta pertença: Conseqüentemente, é também o modelo mais alto desta oração de intercessão. Todos nós pertencemos à grande família da Igreja, unida na oração na qual Ela é Mãe. Por isso os ortodoxos julgam perfeitamente natural a oração dirigida a Maria. É parte integrante da Sua vida em Cristo e na Igreja, e consideram a Virgem uma intercessora por todas as necessidades da humanidade, já que Ela está sempre atenta nas suas orações, e na sua intercessão encontra-se uma esperança segura.

            A devoção dos ortodoxos a Virgem Maria, no entanto, evita com cuidado as expressões sentimentais que possam dar a impressão de uma Mãe de Deus “mais indulgente” do que o Filho. E sempre sublinham que a invocação a Maria não diminui a sua devoção a Cristo, mas, pelo contrário, enriquece-a.

            Em tudo isto a Igreja romana e a ortodoxa têm muito em comum. Há, porém alguns pontos de distinção: um destes é o mistério da Imaculada Conceição de Maria.

            Na verdade, alguns teólogos ortodoxos consideram que Maria foi concebida sem o pecado original; e se um ortodoxo o mantivesse como opinião privada, não seria considerado herético. No entanto iria contra o consenso dos teólogos ortodoxos modernos os quais afirmam, pelo contrário, que Maria sofre as conseqüências do pecado original, ainda que não tenha cometido algum pecado.

            Os motivos por que os ortodoxos rejeitam a doutrina da Imaculada Conceição, proclamada pela Igreja de Roma, são principalmente dois. Em primeiro lugar, são necessários termos presente os Santos do Antigo Testamento, que fazem parte do longo processo através do qual Deus, de geração em geração preparou o mundo para a vinda de Cristo: e Maria é o ponto culminante deste processo; é a recapitulação da santidade do Antigo Testamento. E então, segundo o pensamento ortodoxo, declarar Maria imune do pedado original, diversamente de todos os Santos do Antigo Testamento,

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Pressupõe uma intervenção divina imprevista e drástica, que interrompe aquele longo processo; de modo que a Virgem deixaria de partilhar do destino da humanidade caída, e alhear-se-ia do Antigo Testamento com os seus Santos; debilitar-se-ia, pois a sua ligação com o gênero humano que viveu antes de Cristo; e ficaria obscurecido o verdadeiro significado da sua resposta ao Anjo da Anunciação (de fato naquele momento, Ela falou em nome de todos os Santos do Antigo Testamento).

            O segundo motivo de discordância é mais geral: os ortodoxos não consideram o pecado original no sentido usado pela definição dogmática da Imaculada Conceição por parte de Pio IX. Não o consideram como uma culpa de Adão, herdada por todos os homens, e pela qual são culpados aos olhos de Deus. Vêem-no como uma escravidão da humanidade sob o domínio do demônio, passagem para a doença, a dor física, a morte; e em certo sentido um enfraquecimento da vontade na resistência ao mal. Ora, dado que o pecado original, assim entendido, não torna uma criança culpada aos olhos de Deus, os ortodoxos não consideram necessário que Maria de Nazaré seja dele isenta. Deste modo, a questão da Imaculada Conceição nem se quer se põe. E as conseqüências do pecado original pressupostas pelos ortodoxos, segundo eles, não são incompatíveis com a total santidade de Maria requerida pela sua maternidade divina.

            Uma outra divergência entre o Oriente e Roma diz respeito à doutrina da Assunção. A Igreja ortodoxa não tem nenhuma dificuldade em aceitar a assunção corpórea de Maria: como seu Filho, Ela experimentou a morte física e depois foi elevada ao céu pelo poder divino de Cristo. O Credo cristão acerca do destino eterno no céu compreende a alma imortal e o corpo ressuscitado: e a Assunção significa que a ressurreição de Maria já aconteceu, enquanto todos os outros devem esperar o último dia. Não se escavou nenhum abismo entre Ela e o resto da humanidade: por graça de Deus, todos nós tornaremos naquilo que Maria é já: ou seja, completamente espirituais, transformados, corpo e alma na glória do céu.

            Portanto, a Igreja Ortodoxa crê firmemente na Assunção da Mãe de Deus. Mas não considera necessário proclamá-la como dogma, tratando-se de uma das tantas verdades cristãs incluídas na pregação pública das definições formais, mas que os fiíes aprendem partilhando a vida da comunidade cristã. O mistério da glorificação final da Virgem Bem-aventurada não deve ser considerado como outra verdade, a juntar às que estão confirmadas nas Escrituras; devem ser antes o resultado da assimilação das verdades bíblicas, sob a inspiração do Espírito Santo.

            Para a Igreja ortodoxa, a aprendizagem por parte da comunidade nasce da importância que se atribui à oração e ao culto comum. O culto associado à liturgia vem em primeiro lugar; a doutrina e a disciplina vêm depois. A fé é reservada pelo conteúdo das orações.

            Tudo isso é verdadeiro para a teologia ortodoxa no seu conjunto em geral. E é particularmente verdadeiro para a concepção ortodoxa da Maria, Mãe de Deus. E para o compreender melhor, para compreender como esta Igreja entende o “sim” da Virgem, é necessário olhar para as festas litúrgicas em sua honra: sobretudo a de 08 de setembro (NATIVIDADE) e 21 de novembro (APRESENTAÇÃO NO TEMPLO). No que respeita ao lugar de Maria no Antigo Testamento, coincidir-se-á a liturgia dos dois domingos antes do Natal, que celebram a recordação de todos os “antepassados de Cristo”,

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Os quais desde Adão prepararam o caminho ao Messias.

            O “Credo” da Igreja ortodoxa, depois, exprime-se também numa outra forma característica: nos ícones. E principalmente no seu uso litúrgico.

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             CAPÍTULO IV

             MARIA E AS IGREJAS NÃO-CALCEDONIENSES

Hermano M. Toniolo.

            Chama-se “não-calcedonienses” algumas comunidades cristãs que se separam do tronco unitário da Igreja ainda antes do cisma do Oriente, já no século V e VI, e que ainda hoje continuam vivas, separadas do mundo católico. Na antiguidade, os Bispos e teólogos desta comunidade afirmavam que depois da encarnação e natureza divina e a humana de Jesus Cristo ter-se-iam fundido formando “uma só natureza”. Pelo contrário, o Concílio de Calcedônia, em 451, tinha dito: “Um único Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, mas em duas naturezas: sem confusas, sem mutação, sem divisão”. Porque não acolhiam a doutrina definida, aquelas comunidades foram chamadas “não-calcedonienses”. E são ainda hoje quatro: Igreja Síria ou Jacobita; Igreja Armênia; Igreja Copta, isto é, do Egito; Igreja da Etiópia. Junta-se a estas também a Igreja Assíria ou Caldaica, igualmente separada de Roma e Constantinopla, que ainda antes das outras se tinha tornado autônoma, também por razões de sobrevivência (esses cristãos, na verdade, viviam sob o domínio persa, sempre em luta com o Império do Oriente).

            Vejamos agora o lugar que a Virgem Maria ocupa na vida das cinco Igrejas, do ponto de vista da doutrina e do ponto de vista da liturgia.

a)    Igreja Assíria ou Caldáica – É chamada impropriamente de “nestoriana”, do nome famoso do patriarca de Constantinopla Nestório, que negava a maternidade divina de Maria e que foi condenado em 341 pelo Concílio de Éfeso. Na realidade, os cristãos desta Igreja conservam uma grande veneração pela Virgem Maria. Pastores, estudiosos, historiadores e hinógrafos do século VI ao século XIV exaltaram-na constantemente. Mas não só: eles consideram como seu máximo doutor Santo Efrém da Síria (Séc. IV) cujos hinos fazem ainda parte da liturgia caldaica. Santo Efrém celebra em Maria a beleza interior, a virgindade, a vida intemerata, o prodígio da maternidade que A coloca mediadora entre a Terra e o Céu, mãe espiritual dos homens; mas, sobretudo canta, com estupendas estrofes, o êxtase da Mãe diante do Filho recém-nascido: “Sem o Espírito, quem poderia cantar-te? Uma voz da profecia nasce dentro de mim... Eu transformei-me num porto por causa de Ti, ó grande Mar!...

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“Como o Sinal Eu te trouxe, e não fui incendiada pelo teu fogo tremendo: a Tua chama não me queima”. A linguagem de Santo Efrém inspirou depois gerações de outros hinógrafos, e os próprios teólogos se servem abundantemente destas imagens e comparações nos seus tratados.

            No ano litúrgico desta Igreja há três grandes festas marianas: A primeira recai a 26 de dezembro e chama-se “das congratulações”. Tal como se vai felicitar toda a Mãe que dê a luz uma criança, assim os fiéis vão apresentar as suas felicitações a Maria que gerou Jesus. No dia 15 de maio celebra-se a festa de “Nossa Senhora das sementes”, implorando a proteção de Maria a favor das colheitas. Por fim, temos a maior das festas: 15 de agosto, a Assunção, precedida por sete dias de jejum.

            Nesta solenidade, os fiéis oram assim: “Senhor, torna-nos dignos, pela tua misericórdia, de nos alegrarmos com Ela na vida que não tem fim”.

b) Igreja Síro-Jacobita – (Siríaca Ortodoxa de Antioquia). O segundo nome deriva do Bispo Jacob Baradai, que no século VI a reorganizou hierarquicamente. Acerca do culto mariano nesta comunidade, a arqueologia, a epigrafia e a iconografia trouxeram à luz abundantes testemunhos. A Mão de Deus é uma presença constante no ciclo da vida e das estações. As grandes festas em sua honra são as comuns ao mundo católico romano e ortodoxo; além disso, existe uma memória da Virgem toda especial, típica desta Igreja, que se celebra habitualmente todos os meses, no dia 15. A liturgia recorda-A com freqüência: invoca-A quando comemora os Santos e quando no rito eucarístico, incensa os dons oferecidos no altar: “No aroma deste incenso esteja a Virgem Maria, Mãe de Deus...”. Os maiores doutores siro-jacobitas – Tiago de Sarug e Severo de Antioquia, do século VI – são também grandes cantores da Virgem. Na oração litúrgica quotidiana recitam-se ainda hoje os versos de Tiago de Sarug: “Filha de pobres, tornou-se Mãe do Senhor dos Reis, trouxe riquezas ao mundo pobre, para que viesse... A representar o Céu e a Terra, dois se sentaram, disseram, ouviram, assinaram a paz entre os desavindos... Em lugar da serpente, levantou-se Gabriel; em lugar de Eva, a escutar levantou-se Maria. Paz deu o anjo a Maria, como penhor de grande paz para todo o mundo”.

c) Igreja Armênia – Os fiéis desta comunidade residem na sua maior parte nas repúblicas soviéticas da Armênia e da Geórgia, com outros grupos no Irã, na Turquia, no Líbano, em Chipre, na Grécia e com uma diocese de emigrados também na América do Norte. Os cristãos Armênios foram os melhores tradutores do patrimônio literário grego e siríaco, que entrou a fazer parte da sua cultura; mas tiveram também eles seus grandes autores, a partir pelo menos do século VIII (século X) Nerses o gracioso e Nerses o monge de Lampron, ambos do século XII, que escreveram homilias e orações e cantos escolhidos na liturgia.

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O ano litúrgico armênico inclui as festas maiores a da Natividade de Maria e a da Anunciação, mas todas as festas marianas são entendidas como festa do Senhor. Considera-se como “dia de Maria” a quarta-feira, em recordação da Anunciação que inspirou entre outras esta oração: “Esposa, que a Terra ofereceu o Céu, a Ti elevamos os nossos corações. Reza, para que no dia em que recebeste o anúncio da encarnação nós possamos escutar do Teu filho o outro anúncio: “Vinde, benditos do meu Pai: “Todas as missas se iniciam colocando o povo e o celebrante sob a proteção da Virgem: “Por amor da Santa Mãe de Deus, acolhe-nos, ó Senhor, as nossas orações, e nos salva”. Assim, também, Maria está presente no ofício quotidiano das horas, recorda sempre com palavras de alegria: “Alegra-te, Maria, Mãe da Luz, terra nova, morada do Sol: Reza por nós. “Exulta, aurora vivente, de quem nasceu Cristo, luz dos nossos olhos: intercede por nós”.

d) Igreja copta (egípcia) – Como já sabemos, o Egito foi o berço da veneração a Maria. Aqui nasceu o termo Theotókos (Mãe de Deus) que depois o Concílio de Éfeso fez seu. Aqui nasceu em grego a mais antiga invocação a Maria, conhecida no Ocidente no texto latino que inicia com as palavras Sub tuum praesidium. Aqui, também, se desenvolveu bastante cedo uma iconografia Mariana e se difundiram as narrações populares acerca da vida e dos milagres da Virgem: um patrimônio vastíssimo, em grande parte preservada, não obstante as perseguições árabes. Muitos são ainda os mosteiros e os santuários dedicados a Maria, sempre sob o título de “Mãe de Deus e Virgem”. Outros santuários recordam a permanência no Egito de Maria com Jesus Menino e com José, e são freqüentados também por mulçumanos. A liturgia eucarística, das festas e das horas superabunda de antífonas, de cantos e de louvores marianos; e também os cristãos coptas foram os primeiros (desde o século VIII) a celebrar um “mês mariano” (em dezembro) com um ofício quotidiano próprio. Um antigo cântico egípcio à Virgem diz: “Esta é a celeste Jerusalém, a cidade do nosso Deus, Tu és o segundo céu”.

e) Igreja etíope- A maior parte dos homens, na Etiópia, usa o nome de Maria unido a outros, ou composto em frases como “Esperança de Maria, “Alegria de Maria”. O povo etíope é provavelmente o mais “mariano” do mundo. Também a liturgia vê Nossa Senhora continuamente presente, com as numerosas festas em Sua honra, os ofícios que lhe são dedicados, os hinos (para não falar do vasto patrimônio poético e narrativo de que Ela é protagonista). No ordinário da Missa e nas numerosas orações eucarísticas (anáforas) é dado um grande espaço a Mãe de Deus. Mais: a Ela são dedicadas duas anáforas, único exemplo no mundo cristão, como se o Seu mistério servisse de trama à história da salvação prolongada no rito eucarístico e de guia aos fiéis para aceder aos mistérios sagrados. Cantando a encarnação, uma destas orações exprime-se poeticamente assim: “Ó Virgem, que trouxeste no ventre o fogo devorador (o Seu rosto é Fogo a Sua veste é Fogo, o Seu esplendor é Fogo), como é que não Te incendeias? E onde é que foram afixados, ligados e estendidos no Teu seio os sete pavilhões de fogo, se o teu corpo é tão pequeno?”

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Maria, na Igreja etíope, é celebrada especialmente como o lugar da divina misericórdia. Porque, lemos nos textos desta comunidade, entre Cristo agonizante e a Mãe conclui-se um “pacto de misericórdia” a favor dos necessitados e dos pecadores: é o “pacto” que torna firme a esperança de todos: “Ó Maria, cuja tarefa é amar os homens... a Tua oração nos guarde de noite e de dia”.

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             CAPÍTULO V

             MARIA E OS TEÓLOGOS DA REFORMA

              William Burring

João Calvino acreditava firmemente na conceição de Jesus Cristo por obra do Espírito Santo no seio de Maria, à qual dava sem hesitação o título de “Mãe de Deus”. Podemos confirmá-lo a partir dos seus escritos e dos documentos redigidos pelos seus sequazes: para eles, o nascimento de Jesus de uma Virgem era um fato histórico comprovado.

A primeira grave divergência entre a Reforma e a Igreja católica acerca de Maria, estava noutro ponto. É que, segundo os reformadores, a missão de Maria deveria considerar-se realizada e concluída no momento da Anunciação, isto é, no momento em que Ela aceitou ser Mãe de Jesus Cristo, rejeitavam, portanto, a idéia de Maria como meio permanente, contínuo, através do qual a graça de Deus é transmitida à alma do crente.

A doutrina da Reforma fundava-se, de fato, neste princípio: o homem não tem nenhuma possibilidade de conseguir a salvação através das suas obras. O único veículo de graça é a ação direta do Espírito Santo, que age invisível e livremente no coração dos eleitos: daqueles que, desde toda a eternidade, Deus predestinou para a salvação, segundo a Sua vontade imprescindível. Então, se nenhum homem pode fazer alguma coisa para se salvar, tanto menos uma criatura pode fazer alguma coisa pela salvação de outra criatura. Calvino chega mesmo ao ponto de denunciar como ímpio “o culto dos Santos, simples seres humanos para obter uma salvação que provém unicamente de Deus”. Conseqüentemente era completamente inaceitável a atribuição a uma criatura humana, Maria, de um poder de uma capacidade de interceder junto a Deus. Mas tal coisa parecia aos reformadores uma negação da soberania divina ou, pelo menos, uma sua diminuição, a rejeitar terminantemente.

Sendo estas as promessas, a conseqüência foi à exclusão de Maria da liturgia e da devoção. E assim, com o desaparecimento do Seu culto, também a figura de Nossa Senhora perdeu rapidamente interesse aos olhos dos teólogos reformados. Esta situação não mudou durante longo tempo, até o fim do século XIX, quando de modo indireto e inesperado a atenção de muitos se teve de dirigir de novo para a Mãe de Deus.

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            Tinha nascido no mundo acadêmico reformado uma corrente de pensamento que tendia a criar uma espécie de cristianismo laico, embarcando a chamada visão “científica” do mundo e nas novas teorias da crítica histórica. E chegou-se a ponto de negar fundamento histórico a grande parte das narrações bíblicas, compreendidos os milagres de Jesus e as Sua morte-expiação. Do mesmo modo se negava a Ressurreição, apresentando-a não como um fato, mas como a idealização de outro fato. Dizia-se: como a figura de Jesus teve uma influência incessante nos Seus sequazes depois da Sua morte e ao longo de todos os tempos, o persistir da Sua influência foi matizado e transfigurado na ressurreição. E assim aconteceu também com o seu nascimento virginal: foi definido como algo de puramente imaginário, uma invenção para atribuir a Jesus as duas naturezas de Deus e de Homem.

            A teologia reformada tradicional opôs-se com energia à nova corrente (enquanto também no mundo católico aqueles princípios desencadeavam a violenta crise do chamado modernismo). E atacou, sobretudo as afirmações acerca do nascimento de Jesus Cristo, defendendo com veemência a fé na conceição virginal, afirmando que “se a Bíblia é considerada enganadora no que diz sobre o nascimento de Cristo, então a sua autoridade perde todo o valor também a respeito de qualquer outro argumento”. A nova interpretação, de fato, constituía um novo desafio aos próprios fundamentos da Igreja reformada, cuja doutrina se baseia e unicamente, na autoridade das afirmações bíblicas.

            Foi esta controvérsia que trouxe de novo o argumento – Maria para as discussões teológicas do mundo cristão reformado, reacendendo o interesse e o estudo acerca da Sua figura. No entanto, nada mudou a Seu respeito quer na devoção quer na liturgia, que continuava a ignorá-la.

            A situação só mudou recentemente (e ainda de modo indireto, no início) com o desenvolvimento do ecumenismo. Este foi, e é, o fator novo. Impulsionados por ele, muitos ambientes do cristianismo não católico, da Reforma, deram algum lugar à Virgem na religiosidade e na vida espiritual. E, com efeito, não se pode enfrentar o diálogo sincero entre as Igrejas se não se enfrenta ao mesmo tempo o problema de Nossa Senhora e da sua função.

            A luz de tudo isto é bastante interessante a ação empreendida pelo professor Donald G. Dawe, da Igreja reformada, docente de teologia do UNION THEOLOGICAL SEMINARY de Richamand, nos Estados Unidos, e ativo expoente na América, da Sociedade Ecumênica da Bem-aventurada Virgem, cujo nome indica o programa. O reverendo Dawe, que desenvolve a sua atividade resumindo-a na seguinte frase: “Maria, eterna Genetriz de Cristo”, faz referência ao pensamento de Kral Barth, o grande teólogo suíço, falecido em 1968, que influenciou consideravelmente a teologia protestante contemporânea, suscitando vasto interesse e estudo também no mundo católico.

            Barth opôs-se decididamente às tendências modernistas, como sistema que chega a excluir a possibilidade de revelação; e sobre o tema da conceição virginal de

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Jesus assume uma decidida posição defensiva, que o reverendo Dawe resume deste modo: “Dois aspectos do Evangelho servem como prova irrefutável à reta doutrina contra as tendências modernistas: o nascimento virginal e o túmulo vazio. Quem as rejeita nega também o mistério da encarnação, não obstante as afirmações em contrário. Barth refuta todas as tentativas modernistas de distinguir o nascimento virginal de Cristo-considerado imagem literária e mito da fé na encarnação. O nascimento virginal não é simplesmente a confirmação em linguagem figurada do vere Dues et vere homo (“ verdadeiro Deus e verdadeiro homem”), mas representa o próprio mistério da encarnação. A fé no nascimento virginal é a ligação necessária entre a iniciativa divina que torna possível a salvação, e a sua realização concreta, que a torna acessível. Em segundo lugar, o mistério da vere Deus et vere homo baseia-se, do lado humano, numa receptividade que é obra divina. E o nascimento virginal é a revelação disto mesmo, porque os poderes humanos são aqui irrelevantes. Mesmo a humilde aceitação por parte de Maria assenta na obra do Espírito Santo”.

            E Donald Dawe continua deste modo a síntese do pensamento de Barth: “Estas asserções são os dois lados de uma só medalha: a revelação de que a salvação em Cristo provém só de Deus. Também a nossa resposta à salvação tem lugar numa humildade garantida por Deus e pelo Espírito Santo. Nossa Senhora não é apenas Aquela que um dia gerou Jesus, de modo a que o acontecimento do vere Deus et vere homo fosse um fato da nossa história. É ainda Aquela que, no milagre da Sua virgindade, protege o mistério de Cristo da religião secularizada da modernidade. O Seu “SIM” ao chamamento de Deus é a porta aberta à salvação. Todos juntos dizemos: “Bendita és Tu entre as mulheres e bendito é o fruto do Teu ventre”. E não é um fato circunscrito ao primeiro século: “Maria é ainda aos nossos olhos através do testemunho da Escritura – a Mãe que gera e protege o seu Filho. Sem Ela, o mistério redentor de Seu Filho está perdido. Com Ela, é escolhido com alegria”.

            Este é um exemplo, um dos exemplos, do modo como alguns teólogos da reforma estão hoje, delineando a função de Maria. Há, portanto, uma aproximação de pensamento teológico das Igrejas Católica e Ortodoxa. Mas na naturalidade, é necessário também sublinhar a permanente divergência inicial, a contraposição dos pontos de partida. Para as Igrejas Católicas e Ortodoxas, juntamente e sob a obra santificadora de Deus, existe um espaço para o homem; há a possibilidade de uma intervenção do homem, certamente subordinada, que lhe permite colaborar ativamente na obra da Redenção. A doutrina da Reforma, como sabemos, pelo contrário nega esta possibilidade, tudo atribuindo à única e soberana iniciativa de Deus.

            E Karl Barth, precisamente, apresenta Maria como à prova viva da ausência de uma efetiva cooperação humana na obra da redenção. Quando sublinha a perfeita receptividade, por parte de Maria, da obra divina no momento da encarnação, considera uma receptividade toda realizada e concluída ali, naquele ato, sem alguma ulterior cooperação. É claro, portanto, que a concepção barthiana da relação de Maria com Cristo e com a Igreja não pode concordar com a doutrina católica e ortodoxa. O caminho ecumênico é longo. Encontros e diálogos não se podem comparar a congressos diplomáticos, destinados a concluir-se com a assinatura de tratados. Eles

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São, acima de tudo, etapas de uma peregrinação nem breve nem fácil em direção a unidade: e, nesta peregrinação, Maria de Nazaré desempenha um papel importante, acompanham-nos a todos neste caminho, quaisquer que sejam os nossos pontos de partida.

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             CAPÍTULO VI

 

             MARIA E OS ANGLICANOS

              Graham Leinard, da Igreja da Inglaterra (Bispo de Londres)

            O Cristão que recebeu Nosso Senhor no Sacramento do Seu Corpo e do Seu Sangue poderia repetir algumas palavras do Antigo Testamento, mas com um significado totalmente novo, relativamente ao originário. As palavras são: “A mulher deu-no... e eu comi-o”. Precisamente as palavras de Adão na narração da queda, depois de ter comido o fruto proibido (Gn. 3). Refletindo sobre esta frase, podemos descobrir a realidade da encarnação e a parte que nela teve Maria, aprendendo a conhecê-La melhor como “segunda Eva”.

            Mas, antes de mais, pensemos na primeira Eva. Criada com Adão à imagem e semelhança de Deus, é tentada e induzida a usar a sua liberdade não para obedecer jubilosamente ao Criador, mas na tentativa de se tornar como Ele. E o tentador, para alcançar o seu objetivo, apresenta-lhe o amor divino como inveja e o serviço como escravidão, como se Deus desejasse humilhar o homem.

            Dizendo “SIM” à tentação, Eva encaminha-se para o caminho clássico que sempre conduziu ao pecado: em lugar do Criador escuta a criatura insidiosa, segue o mundo, a voz do presente, alinha com a criatura isolada d’Aquele que criou o espaço e o tempo. Esquece os ensinamentos que recebeu a vai atrás de quem estimula a realizar-se, insinuando-lhe que o poderá fazer sozinha, sem a ajuda de Deus.

            Como é atual, tudo isto: A resposta de Eva separa os mandamentos de Deus e os desejos do mundo, e prefere estes últimos. Depois de ter cedido com a mente e o coração, violando o preceito, ei-la a passar aos fatos: a tentação transforma-se em ação, Eva toma e come.

            Diz a este propósito um comentador contemporâneo: “O mais simples é o ato, mais difícil é anulá-lo. Deus experimentará a pobreza e morte de a palavra “tomai e comei” se tornar palavra de salvação”. Estupendo comentário, digno de ser lido e meditado.

            E agora consideremos Maria quando, na plenitude dos tempos, ao Anúncio do Anjo, recebe o chamamento. Feliz por ser serva de Deus, vence as Suas naturais inclinações e as Suas dúvidas, firmemente convencida de que Ele A tornará apta a realizar a tarefa que a chama. Feliz por obedecer, acolhe como alegre acontecimento este chamamento divino. Como o pensamento de Eva tentada se traduz em ação, assim

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A obediência de Maria se transforma em acontecimento: O Verbo fez-Se carne; o Filho de Maria foi concebido e o Filho eterno de Deus assume a nossa humanidade.

            Numa paróquia da diocese de Londres, entre duas guerras mundiais, os fiéis evocaram em cada ano a Encarnação como uma representação festiva da Natividade, que o grande teólogo anglicano, professor Eric Mascall, louvou como a expiação mais penetrante e emocionante do acontecimento. Eis como ele descreveu a sucessão das cenas:

            “A Anjo visita Maria enquanto este reza, e anuncia-lhe que foi escolhida para ser a Mãe de Deus. Maria responde com as palavras Ecce ancila e Fiat Mihi. Depois de uma breve e comovida pausa, Gabriel cai de joelhos, adorando não Maria, mas Quem n’Ela se havia encarnado”.

            “Entram então em cena os anjos que, depois de A terem coroado e A terem revestido do manto real, põem-n’A, rodeada de velas acesas no centro de um altar: precisamente no lugar onde habitualmente se encontra o tabernáculo com o Santíssimo Sacramento. E logo a seguir canta-se o Magnificat como durante as Vésperas: e incensa-se Maria, tabernáculo vivo do homem-Deus. Desde aquele momento, até ao nascimento de Jesus em Belém, Maria no seu peregrinar, aparece sempre precedida por um Anjo com uma luz branca. Também o sacerdote, quando transporta o Santíssimo Sacramento, é precedido por um acólito com uma luz branca”.

            O professor Mascall continua deste modo: “Não creio que possamos compreender em profundidade o significado da encarnação, e a missão única de Maria entre as demais criaturas, se não refletimos com atenção e reverência no fato de Maria ter trazido em Si, durante nove meses, o Deus encarnado, enquanto continuava a sua vida cotidiana”.

            Acrescentarei que sem esta reflexão não poderemos compreender se quer o significado do Santíssimo Sacramento, pois este está ligado à encarnação, na qual Maria teve uma importância essencial. A encarnação é uma obra potente de Deus vivo; foi “a Sua intervenção mais pessoal na criação”. A pessoa do Filho assumiu um corpo e uma natureza humana. Depois, com este corpo, nesta natureza, provou a pobreza e a morte. É com este corpo e nesta natureza humana que Ele resgatou o homem e todo o universo criado, através da Sua morte, ressurreição e ascensão, e a criação foram reconciliadas e reunidas em Deus; em Deus na Sua plenitude.

            E isto não foi um fato isolado. Deus iniciou então uma relação que deve ser mantida para sempre. “Ele é Aquele que foi e será para sempre: mas para nós tornou-se o que não era” O eterno Filho é para sempre homem, e Maria é Sua Mãe. Como antecipação disto, antes de morrer, tomou o pão e disse: “Tomai e comei, isto é o meu corpo”. Ou seja: com este ato tornar-vos-eis participantes da minha gloriosa humanidade; e, graças a esta humanidade, unir-vos-eis agora e para sempre ao Divino, participantes da natureza divina.

            É através da Sua natureza humana – carne e sangue que lhe foram dados para uma mulher, Maria – que Ele nos é dado. Com a comunhão nós recebemos redimidos, elevado e glorificado – o corpo que teve Ele de Maria: “A mulher deu-no e eu comi-o”. Como o corpo encarnado de Jesus não era só um símbolo, mas a presença real do

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Eterno Filho, do mesmo modo o corpo do Senhor que nós é oferecidos no sacramento eucarístico não é só símbolo da eterna presença do Senhor; não é só uma espécie de pálido fantasma, se me é permitido à comparação. Deus não se transformou em pão, como nem sequer o divino se tornou carne: o pão consagrado como corpo do Senhor é o meio através do qual Cristo ressuscitado, o homem-Deus, nos transmite a Sua humanidade glorificada, na qual tudo aquilo que foi criado foi redimido. O mistério da Encarnação reflete-se no mistério do Santíssimo Sacramento.

            Para evitar o “escândalo da união entre o divino e o homem, há quem afirme que Deus, para Se tornar homem, deve ter abandonado alguns atributos divinos. E do mesmo modo, para evitar o escândalo do Santíssimo Sacramento, há quem queira considerar um simples símbolo (ou quando muito, um meio impessoal de graça) e não o Sacramento certo e indubitável da divina presença. Também entre nós, portanto, há aqueles que dizem: “Não é este porventura o filho do carpinteiro?”e: “Como pode este homem dar-nos a comer a sua carne?”“.

            Nós, sempre em caminho como cidadãos da Terra, somo também cidadãos do Céu, unidos em Cristo. “Caríssimos, agora somos filhos de Deus, mas ainda não nos foi revelado o que viremos a ser”. Vivemos entre o já e o ainda não. Quando recebemos o Corpo e o Sangue de Cristo, estamos a ser já redimidos, tal como participando da vida da Santíssima Trindade, e tendo recebido o dom do Espírito Santo, nos tornamos filhos de Deus. E ao mesmo tempo antecipamos o ainda não, quando festejamos Ceia do Cordeiro.

            Maria ofereceu o Seu corpo como tabernáculo do Senhor encarnado. E também nós, na apresentação das ofertas, oferecemos o nosso pão a fim de que, pela força da palavra de Cristo ressuscitado: “Isto é o meu corpo” e graças à força do Espírito Santo, se transforme no seu corpo glorificado, e nos seja possível permanecer n’Ele, e Ele em nós...

            Cristo, o segundo Adão, dá-nos a nós aquilo que Maria, a segunda Eva, Lhe deu. Dá - no-lo dizendo: “Tomai e comei”. E nós obedecemos com alegria e humildade, agradecendo a Maria e adorando Nosso Senhor Jesus Cristo que encarnou e ressurgiu da morte.

            No século XVII o leigo anglicano Anthoni Stafford escreveu: “... enquanto não formos bons marianos não seremos bons cristãos; se diminuem a dignidade de Maria, não podem venerar realmente o Filho”. Se não nos pomos a refletir e a contemplar profundamente a vocação de Nossa Senhora, não podemos ser agarrados pela realidade do ato divino da encarnação, seja com fato histórico, seja como contínua comunhão que o homem é chamado a realizar com Deus.

            Os Anglicanos, na sua liturgia cantam muitas vezes este hino dedicado a Maria Genetriz de Cristo: “Ó mais alta que os Querubins, / mais gloriosa que os Sarafins,/ guiam os seus louvores, aleluia,/ Tu, portadora da palavra eterna/ a mais misericordiosa, glorifica o Senhor,/ Aleluia!”.

             CAPÍTULO VII
 

             MARIA E O ISLÃ

            Nilo Geagea

            O Alcorão fala muito de Maria (e dedica-Lhe um capítulo inteiro) indicando-A como modelo de criatura inteiramente consagrada a Deus e exaltando a Sua maternidade virginal. Ainda hoje o respeito pela Mãe de Jesus é muito vivo entre os muçulmanos, que vão rezar aos santuários cristãos a Ela dedicados.

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BIBLIOGRAFIA

           

1- NEVES, Audálio. Maria no Evangelho. Revista Continente

auditorial Ltda. 1983;

 

            2- Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Paulus, 1998;

 

            3- Rinckel, Herri Pierre. Espiritualidade Ortodoxa;

 

            4- Contemplativo, um monge. Deificação na Teologia Ortodoxa;

 

            5- Perez, Henrique. O Mártir do Gólgota volume I- Editorial

                                               Domingos Barreira- Porto Portugal;

 

6- Flores, José H. Prado. História da Salvação- Edições Louva a                          Deus, 1988;

 

7- Autores, vários- Maria Mãe dos Homens- Edições Paulistas-

                                   Lisboa, 1989.

 

             IGREJA SIRIANORTODOXA DE ANTIOQUIA

 MISSIONÁRIA DO BRASIL

 

 Governo Central

 

 

 

    

 

           

 

    M A R I O L O G I A

Dom José Faustino Filho

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APRESENTAÇÃO

 

            Ao apresentarmos este compendêndio de estudos sobre Maria; MARIOLOGIA: descrevemos toda a caminhada da Virgem Mãe, da Terra rumo a Pátria Celeste.

            Mariologia, quer dizer, Doutrina sobre Maria. É o estudo que diz respeito à Theotokos, Mãe de Deus feito homem, Jesus Cristo.

            Ao ser cultuada em sua condição de Mãe de Deus, a Virgem Maria, leva os fiéis ao seu Divino Filho, à comunhão do Espírito Santo e ao amor benevolente de Deus Pai.

            Maria, Mãe de Deus a “Serva do Senhor”, é uma criatura privilegiada, desde antes do seu nascimento. Segundo o Protoevangelho de São Tiago, apócrifo do século II considerado como uma fonte autêntica por Clemente de Alexandria (140-220) e também por Orígenes (185-253) a Virgem Maria nasceu de um casal de justo, Joaquim e Ana. Última flor da vara de Jessé (Is 11,1) foi levada por seus pais com a idade de três anos, ao Templo de Jerusalém, o lugar da presença Divina.

            Sigamos as Sagradas tradições do Oriente e, com elas à vista e a fé na alma, Deus nos ajudará para levarmos ao fim a difícil peregrinação que nos propusemos: Acompanhar aos passos da Virgem de Nazaré, da sua concepção até no céu com Jesus.

            Em Nazaré, pequena cidade da Baixa Galiléia, vivia um homem honrado por nome Joaquim, da tribo de Judá, e da descendência de Davi por Natan.

            Sua esposa tinha por nome Ana (graciosa).

            Ambos eram bons e observavam com fé no coração os mandamentos de Jeová.Mas o Senhor apartava deles o seu olhar e Ana continuava estéril, depois de vinte anos casados.

            Joaquim podia romper aquele fecundo laço, dando-lhe as cartas de divórcio, que a lei dos fariseus com tanta facilidade concedia.

            Lei bárbara, inumana, em que as esposas eram escravas e os depóticos senhores, “pois só por ter deixado cozer de mais a vianda do dono da casa ou por não ser bastante graciosa, podia o homem repudiar sua mulher e unir-se à outra”.

            Ana vivia triste, porque a infecundidade era, assim, olhada em Israel como um opróbrio.

            Mas Joaquim amava sua esposa, e vivia resignado entre o trabalho, a oração e a caridade.

            Pediam fervorosamente em suas preces para que Deus lhes concedesse um herdeiro, para se verem limpos da mancha que sobre eles pesava, e Deus escutou os seus rogos, porque saiam de dois corações puros que punham n’Ele a sua fé e esperança.

            Ana sentiu, finalmente, agitar - de em seu ventre o gérmen dum novo ser, e feliz da vida foi participá-lo a seu esposo.

            Passou uma e outra lua, e por fim em uma manhã do mês de Tirsri, Ana foi mãe, e Joaquim apresentou aos parentes e amigos uma linda menina, formosa

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Anjo, loira como o ouro dos mercadores do Egito. (Segundo a opinião de alguns orientalistas, a linda menina Nasceu a oito de setembro (Tirsri), primeiro mês civil dos judeus, no ano 734 de Roma e 21 antes da nossa era. A hora do seu nascimento seria ao amanhecer do dia de sábado).

            Nove dias depois, segundo os costumes dos israelitas, reuniram-se na casa de Joaquim para darem o nome ao novo rebento.

            O pai escolheu o mais belo nome, o mais sublime, que ainda combinaram as letras gregas do alfabeto, um nome que, só encerra um poema de inesgotável ternura.

            Este nome era Miriam (Maria), nome que em língua siríaca significa Soberana, e em hebraico Estrela do Mar.

            E como dar-lhe outro nome e que melhor explicasse a alta dignidade da Virgem que havia de encerrar no seu seio o Mártir do Calvário, o Salvador do Mundo?

            Vamos acompanhar a escolhida de Deus em nossos estudos até a sua glória, no céu, com Jesus.

           

Abril de 2004, comemorando o oitavo aniversário de morte do Arcebispo Crisóstomos Moussa Matanos Salama.

 

+ Dom José Faustino Filho

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RECOMENDAÇÕES

O povo foi à vinha que Deus escolheu à qual dedicou os maiores cuidados para que no tempo oportuno desse seu fruto: Jesus Cristo. Por esta razão, cercou-a e cuidou dela, cavou-lhe um fosso e erigiu uma torre em seu centro. Deus tinha feito tudo para a sua vinha: a plenitude dos tempos ia chegando. Jesus Cristo, fruto maduro de Israel, estava mais perto que nunca. Era iminente sua vinda.

Esse longo peregrinar do povo escolhido foi coroado por uma mulher. Nela chega ao cume à preparação que precedeu a vinda do Messias. Certamente, a história do povo de Israel esteve entretecida de obediência e rebeldia, mas a fé e a docilidade desta filha de Abraão foram mais notórias aos olhos de Deus do que as infidelidade do seu povo. Seu nome era MARIA e morava numa aldeota ignorada pelo Antigo Testamento: Nazaré da Galiléia.

Nela culmina a grande etapa do mundo, ao mesmo tempo em que em seu coração e em seu ventre se iniciam os primeiros tempos da era messiânica. Ela é o final glorioso de todas as etapas preparatórias à vinda do Salvador e o laço de união com o Novo Testamento.

Com Jesus, por Maria, conclamamos a todos que se sentem chamados ao ministério do Filho da Virgem a darem testemunho dos seus ensinamentos na Santa Igreja de Deus, Católica Ortodoxa, estudando e meditando sobre Maria, Rainha Medianeira e Mãe dos homens.

Lancemos nos braços de Maria, amando-a e imitando com o maior carinho. Invoquemos Maria, com a maior confiança para que ela defenda de todos os males e maldades nossa Santa Igreja, o Brasil e o mundo.

Com nossa benção.

 

Brasília-DF, 18 de abril de 2004, 8º aniversário de falecimento do nosso saudoso Pai espiritual o arcebispo Crisóstomos Moussa Matanos Salama.

 

+ Dom Leolino Gomes Neto.

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BIBLIOGRAFIA

1- NEVES, Audálio. Maria no Evangelho. Revista Continente

auditorial Ltda. 1983;

            2- Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Paulus, 1998;

            3- Rinckel, Herri Pierre. Espiritualidade Ortodoxa;

            4- Contemplativo, um monge. Deificação na Teologia Ortodoxa;

            5- Perez, Henrique. O Mártir do Gólgota volume I- Editorial

                                               Domingos Barreira- Porto Portugal;

6- Flores, José H. Prado. História da Salvação- Edições Louva a                          Deus, 1988;

 

7- Autores, vários- Maria Mãe dos Homens- Edições Paulistas-

                                   Lisboa, 1989.  

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CAPÍTULO I

MARIA A REVELAÇÃO DA SANTÍSSIMA TRINDADE

1-        A PESSOA DE MARIA NO EVANGELHO

Evangelho: Mt. 1,1-16; 20-23 Lc. 1,26-27; 30-32; 38

Jô. 1,1-4; 10; 14; 18

 

            O Evangelho de Jesus Cristo, narrado por Mateus, Lucas e João, no primeiro capítulo, lança as bases dos mais profundos mistérios da nossa fé cristã: A Unidade e Trindade de Deus, a Encarnação e a Redenção, aos quais é associada, com “vínculo indissolúvel”, a Maternidade divina de Maria, fundamento de todos os privilégios e prerrogativas da humilde Virgem de Nazaré.

            É a partir da revelação do Filho de Deus que procede do “seio do Pai” e se encarna no “seio de Maria”, e é através da Virgem Mãe que melhor podemos conhecer a Deus facilmente chegar até ele.

            O Caminho que o Pai escolheu para nos dar seu Filho é o mesmo que devemos tomar para chegarmos a Ele: “a Jesus por Maria”.

            De modo maravilhoso, entrosam-se os Evangelistas na revelação de Deus e na apresentação da Virgem de Nazaré.

            “““ “““ Deus se revela “no princípio”, em sua misteriosa eternidade, antes que existisse qualquer criatura, em sua intimidade, em sua vida por dentro entra” no seio do Pai” que gera “seu Filho unigênito”, “antes de todos os séculos”. “E do Pai procede o Espírito Santo”.

            É nossa profissão de fé: “Cremos em um só Deus, Pai todo poderoso... Cremos em um só Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos. Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai... Cremos no Espírito Santo, que é igualmente Senhor, origem da vida que do Pai procede. E com o Pai e o Filho é igualmente adorado e glorificado: Ele que falou pelos profetas e apóstolos (credo Niceno-Constantinopolitano).

            Maria, apresentada como a Virgem de Nazaré é a mesma de que fala, muito antes, o profeta Isaías: “Eis que a Virgem conceberá e dará a luz um Filho, ao qual será dado o nome de Emanuel”, que significa “Deus conosco. (Is. 7,14).

            Maria, que no Antigo Testamento aderiu ao único Deus verdadeiro, é convocada no Novo Testamento a dar sua adesão a este mesmo Deus, que é Uno e ao

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Mesmo tempo Trino: Uno na sua única divindade e Trino nas pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

2- MARIA E A FAMÍLIA DE ZACARIAS, ISABEL E JOÃO.

Evangelho: Lc 1,5-25; 36-37; 44-45

            Depois de apresentar Maria no seu relacionamento com a família Divina do Pai, Filho e Espírito Santo, o Evangelho mostra Maria voltada para a família de Zacarias, Isabel e João.

            Importa enfocar esta família com a qual Maria manteve o mais doce laço de amizade. Família privilegiada e agradável a Deus, escolhida como motivo de credibilidade da revelação feita a Maria.

            O Evangelista Lucas descreve a família amiga de Maria.

            Zacarias é “um sacerdote” judaico, “da classe de Abias”, constituída de muitos sacerdotes. Eram escolhidos por sorteios os quais deviam exercer funções especiais, como oferta do incenso, feitas duas vezes por dia, pela manhã e antes do crepúsculo.

            Isabel, sua esposa, parenta de Maria, é descendente de Arão. “Ambos eram justos diante de Deus”. Praticavam o bem e evitavam o mal, “levando vida irrepreensível de conformidade com os mandamentos e ordens do Senhor”.

            Experimentavam, porém, Zacarias e Isabel grande amargura: “Não tinham filhos, porque Isabel era estéril e ambos de idade avançada”.

            Aconteceu o melhor: Zacarias é sorteado para “entrar no santuário do Senhor e oferecer ali o incenso”.

            Apareceu-lhe, então o mesmo anjo da Anunciação ou Encarnação, Gabriel, que lhe anunciara a feliz notícia: “Não temas, Zacarias, porque foi ouvida a tua oração. Tua esposa Isabel te dará um filho e lhe porás o nome de João”.

            João, o filho ardentemente tão desejado, é a alegria de Zacarias e Isabel, e de muita gente. “Grande diante do Senhor”. Austero no comer e beber. “Cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe”, graças à mediação de Maria, conforme a afirmação de Isabel: “Pois, apenas soou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino saltou de alegria e meu ventre”.

            O filho de Isabel é o precursor do Filho de Maria, “preparando assim para o Senhor um povo bem disposto”. Arauto da Encarnação do Filho de Deus. Mensageiro do “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”; (Jô. 1,29).

03- MARIA CONCEBEU PELO ESPÍRITO SANTO

Evangelho MT. 1,18-25 Lc. 1,34-37

 

            Após a apresentação da família de Zacarias, Isabel e João, o Evangelho dá especial enfoque a Maria Sempre Virgem e o Espírito Santo.

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             CAPÍTULO VII

             MARIA E O ISLÃ

            Nilo Geagea

            O Alcorão fala muito de Maria (e dedica-Lhe um capítulo inteiro) indicando-A como modelo de criatura inteiramente consagrada a Deus e exaltando a Sua maternidade virginal. Ainda hoje o respeito pela Mãe de Jesus é muito vivo entre os muçulmanos, que vão rezar aos santuários cristãos a Ela dedicados.

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Eterno Filho, do mesmo modo o corpo do Senhor que nós é oferecidos no sacramento eucarístico não é só símbolo da eterna presença do Senhor; não é só uma espécie de pálido fantasma, se me é permitido à comparação. Deus não se transformou em pão, como nem sequer o divino se tornou carne: o pão consagrado como corpo do Senhor é o meio através do qual Cristo ressuscitado, o homem-Deus, nos transmite a Sua humanidade glorificada, na qual tudo aquilo que foi criado foi redimido. O mistério da Encarnação reflete-se no mistério do Santíssimo Sacramento.

            Para evitar o “escândalo da união entre o divino e o homem”, há quem afirme que Deus, para Se tornar homem, deve ter abandonado alguns atributos divinos. E do mesmo modo, para evitar o escândalo do Santíssimo Sacramento, há quem queira considerar um simples símbolo (ou quando muito, um meio impessoal de graça) e não o Sacramento certo e indubitável da divina presença. Também entre nós, portanto, há aqueles que dizem: “Não é este porventura o filho do carpinteiro?” e: “Como pode este homem dar-nos a comer a sua carne?”.

            Nós, sempre em caminho como cidadãos da Terra, somo também cidadãos do Céu, unidos em Cristo. “Caríssimos, agora somos filhos de Deus, mas ainda não nos foi revelado o que viremos a ser”. Vivemos entre o já e o ainda não. Quando recebemos o Corpo e o Sangue de Cristo, estamos a ser já redimidos, tal como participando da vida da Santíssima Trindade, e tendo recebido o dom do Espírito Santo, nos tornamos filhos de Deus. E ao mesmo tempo antecipamos o ainda não, quando festejamos Ceia do Cordeiro.

            Maria ofereceu o Seu corpo como tabernáculo do Senhor encarnado. E também nós, na apresentação das ofertas, oferecemos o nosso pão a fim de que, pela força da palavra de Cristo ressuscitado: “Isto é o meu corpo” e graças à força do Espírito Santo, se transforme no seu corpo glorificado, e nos seja possível permanecer n’Ele, e Ele em nós...

            Cristo, o segundo Adão, dá-nos a nós aquilo que Maria, a segunda Eva, Lhe deu. Dá - no-lo dizendo: “Tomai e comei”. E nós obedecemos com alegria e humildade, agradecendo a Maria e adorando Nosso Senhor Jesus Cristo que encarnou e ressurgiu da morte.

            No século XVII o leigo anglicano Anthoni Stafford escreveu: “... enquanto não formos bons marianos não seremos bons cristãos; se diminuem a dignidade de Maria, não podem venerar realmente o Filho”. Se não nos pomos a refletir e a contemplar profundamente a vocação de Nossa Senhora, não podemos ser agarrados pela realidade do ato divino da encarnação, seja como fato histórico, seja como contínua comunhão que o homem é chamado a realizar com Deus.

            Os Anglicanos, na sua liturgia cantam muitas vezes este hino dedicado a Maria Genetriz de Cristo: “Ó mais alta que os Querubins, / mais gloriosa que os Sarafins,/ guiam os seus louvores, aleluia,/ Tu, portadora da palavra eterna/ a mais misericordiosa, glorifica o Senhor,/ Aleluia!”.

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Focaliza a Virgindade Perpétua de Maria como uma intervenção extraordinária

Do Espírito Santo: “O Espírito Santo virá sobre ti” e “a Virgem conceberá e dará a luz um Filho”.

A Virgindade da Mãe de Deus é uma das verdades fundamentais da

Mariologia, verdade já anunciada muito antes do Evangelho, pelo Profeta Isaias, chamado protoevangelista: “Eis que a Virgem conceberá e dará a luz um Filho, ao qual será dado o nome de Emanuel”, nome que significa Deus-Conosco. (Is. 7,14).

            O Evangelista Lucas apresenta a Virgem Maria no mês relacionado com a gravidez de Isabel, sua parenta: Era já o “sexto mês” de gravidez “daquela que era chamada estéril”.

            Um fato concreto, capaz de ser provado pessoalmente por Maria e que lhe é comunicado como motivo de credibilidade dos acontecimentos maravilhosos que são revelados pelo Anjo da Encarnação.

            Gabriel aparece na Galiléia, à “Virgem” de “Nazaré”.

            Virgem toda especial, “desposada com um homem chamado José”, - tema que será tratado no próximo estudo.

            “O nome da Virgem era Maria”.

            O Anjo Gabriel, em nome de Deus Pai, pede a Maria o seu consentimento para ser a Mãe do divino Filho, Salvador do Mundo e Rei eterno do universo: “Eis que conceberás e darás a luz um Filho, a quem porás o nome de JESUS. Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu Pai Davi. Ele reinará eternamente sobre a casa de Jacó e seu reino não terá fim”. (Lc. 1,31-33).

            Maria é convidada para assumir a missão mais digna de que é capaz uma simples criatura: Ser Mãe de Deus, Mãe de um Deus Redentor, Mãe do Messias prometido, Mãe do Rei eterno do universo, único, na descendência de Davi, cujo “reino não terá fim”.

04- MARIA E JOSÉ

Evangelho: MT. 1,18-20; 24 Lc. 1,26-27

 

            Depois de focalizar Maria sempre Virgem e o Espírito Santo, que, com a intervenção extraordinária, entra na sua vida, conservando sua Perpétua Virgindade, o Evangelho destaca Maria e José, unidos indissoluvelmente como Esposa e Esposo, e também associados estreitamente, em família, ao mistério da Vida Redentora de Jesus.

            O pouco que o Evangelho fala de José é o suficiente para compreendermos sua grandeza, dignidade e autenticidade; sua sublime missão de Esposo da Mãe de Deus e Substituto do Pai Eterno junto de Jesus; sua participação valiosíssima no mistério do nascimento do Filho de Deus, concebido “por obra do Espírito Santo” no seio de Maria e feito Redentor do mundo; seu vínculo indissolúvel à História da Salvação do Povo de Deus.

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            Tudo isso coloca José à parte e no cume mais alto do rol dos santos, logo depois de Maria.

            Com Maria, José recebe o Filho de Deus Encarnado na Gruta de Belém;

Mostra-o aos pastores; dá-lhe o nome de Jesus; apresenta-o no Templo; coloca-o diante

Dos Magos; protege-o na fuga para o Egito; providencia sua volta para a Terra de Israel; procura-o aflito, em Jerusalém; convive com ele, sustenta-o com o suor do rosto; participam de sua educação, trabalho e vida oculta da Família de Nazaré, onde como

“Pai” comanda e Jesus como “Filho”, obedece: Jesus “desce com eles- Maria e José- e lhes era submisso”.  (Lc. 2,51).

            Cumprida sua missão de sombra de Pai Eterno, José não mais aparece no Evangelho e não o encontramos na vida pública de Jesus, a qual principia com sua manifestação, por intercessão de Maria, nas bodas de Cana, como o sinal patente do Messias tão desejado para a salvação do mundo.

            O Evangelho, aqui, enfoca Maria como “Uma Virgem desposada com um homem chamado José, da casa de Davi”.

 

05- MARIA A IMACULADA.

Evangelho; Lc 1,28

Lc. 1,42

I Tim. 2, 5-6

Gen. 2,25

 

            Depois de termos contemplado Maria no seu relacionamento com a Família Divina do Pai, Filho e Espírito Santo; com a família de Zacarias, Isabel e João; com José seu esposo, apresentaremos agora a pessoa de Maria, em si mesmo, nos estudos 05 a 08, a saber: A Imaculada; A Serva do Senhor; A feliz porque teve fé; e aquela que glorifica o Senhor.

            Numa palavra, Maria na sua sublimidade de pessoa humana, de cristã perfeita, enriquecida de santidade, virtudes e privilégios divinos.

            Na ordem cronológica, o primeiro privilégio de Maria é a sua Concepção: Maria, a Imaculada.

            O Evangelho Lucas, em 1,28 e 42, lança os fundamentos da “Concepção” de Maria, na saudação Angélica e na exclamação inspirada de Isabel.

            Maria é a cheia de graça; “Ave cheia de Graça”.

            Maria é repleta da presença do Senhor: “O Senhor é contigo!”.

            Maria é “Bendita entre as mulheres”.

            O segundo capítulo de Gênesis nos apresenta Eva criada por Deus em justiça original, em santidade e inocência.

            Somente no terceiro capítulo o Gênesis fala da entrada do pecado no mundo. (Gen. 2,25).

            Se Maria é a “Bendita entre as mulheres”, a privilegiada de Deus, por excelência, ela suplanta Eva na justiça original e na graça santificante. É a “Cheia de Graça”, a “Repleta da presença do Senhor”: “Ave cheia de graça! O Senhor é contigo!”

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A obediência de Maria se transforma em acontecimento: O Verbo fez-Se carne; o Filho de Maria foi concebido e o Filho eterno de Deus assume a nossa humanidade.

            Numa paróquia da diocese de Londres, entre duas guerras mundiais, os fiéis evocaram em cada ano a Encarnação como uma representação festiva da Natividade, que o grande teólogo anglicano, professor Eric Mascall, louvou como a expiação mais penetrante e emocionante do acontecimento. Eis como ele descreveu a sucessão das cenas:

            “A Anjo visita Maria enquanto este reza, e anuncia-lhe que foi escolhida para ser a Mãe de Deus. Maria responde com as palavras Ecce ancila e Fiat Mihi. Depois de uma breve e comovida pausa, Gabriel cai de joelhos, adorando não Maria, mas Quem n’Ela se havia encarnado”.

            “Entram então em cena os anjos que, depois de A terem coroado e A terem revestido do manto real, põem-n’A, rodeada de velas acesas no centro de um altar: precisamente no lugar onde habitualmente se encontra o tabernáculo com o Santíssimo Sacramento. E logo a seguir canta-se o Magnificat como durante as Vésperas: e incensa-se Maria, tabernáculo vivo do homem-Deus. Desde aquele momento, até ao nascimento de Jesus em Belém, Maria no seu peregrinar, aparece sempre precedida por um Anjo com uma luz branca. Também o sacerdote, quando transporta o Santíssimo Sacramento, é precedido por um acólito com uma luz branca”.

            O professor Mascall continua deste modo: “Não creio que possamos compreender em profundidade o significado da encarnação, e a missão única de Maria entre as demais criaturas, se não refletimos com atenção e reverência no fato de Maria ter trazido em Si, durante nove meses, o Deus encarnado, enquanto continuava a sua vida cotidiana”.

            Acrescentarei que sem esta reflexão não poderemos compreender se quer o significado do Santíssimo Sacramento, pois este está ligado à encarnação, na qual Maria teve uma importância essencial. A encarnação é uma obra potente de Deus vivo; foi “a Sua intervenção mais pessoal na criação”. A pessoa do Filho assumiu um corpo e uma natureza humana. Depois, com este corpo, nesta natureza, provou a pobreza e a morte. É com este corpo e nesta natureza humana que Ele resgatou o homem e todo o universo criado, através da Sua morte, ressurreição e ascensão, e a criação foram reconciliadas e reunidas em Deus; em Deus na Sua plenitude.

            E isto não foi um fato isolado. Deus iniciou então uma relação que deve ser mantida para sempre. “Ele é Aquele que foi e será para sempre: mas para nós tornou-se o que não era” O eterno Filho é para sempre homem, e Maria é Sua Mãe. Como antecipação disto, antes de morrer, tomou o pão e disse: “Tomai e comei, isto é o meu corpo”. Ou seja: com este ato tornar-vos-eis participantes da minha gloriosa humanidade; e, graças a esta humanidade, unir-vos-eis agora e para sempre ao Divino, participantes da natureza divina.

            É através da Sua natureza humana – carne e sangue que lhe foram dados para uma mulher, Maria – que Ele nos é dado. Com a comunhão nós recebemos redimido, elevado e glorificado – o corpo que teve Ele de Maria: “A mulher deu-no e eu comi-o”. Como o corpo encarnado de Jesus não era só um símbolo, mas a presença real do

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             CAPÍTULO VI

 

             MARIA E OS ANGLICANOS

              Graham Leinard, da Igreja da Inglaterra (Bispo de Londres)

            O Cristão que recebeu Nosso Senhor no Sacramento do Seu Corpo e do Seu Sangue poderia repetir algumas palavras do Antigo Testamento, mas com um significado totalmente novo, relativamente ao originário. As palavras são: “A mulher deu-no... e eu comi-o”. Precisamente as palavras de Adão na narração da queda, depois de ter comido o fruto proibido (Gn.3). Refletindo sobre esta frase, podemos descobrir a realidade da encarnação e a parte que nela teve Maria, aprendendo a conhecê-La melhor como “segunda Eva”.

            Mas, antes de mais, pensemos na primeira Eva. Criada com Adão à imagem e semelhança de Deus, é tentada e induzida a usar a sua liberdade não para obedecer jubilosamente ao Criador, mas na tentativa de se tornar como Ele. E o tentador, para alcançar o seu objetivo, apresenta-lhe o amor divino como inveja e o serviço como escravidão, como se Deus desejasse humilhar o homem.

            Dizendo “SIM” à tentação, Eva encaminha-se para o caminho clássico que sempre conduziu ao pecado: em lugar do Criador escuta a criatura insidiosa, segue o mundo, a voz do presente, alinha com a criatura isolada d’Aquele que criou o espaço e o tempo. Esquece os ensinamentos que recebeu a vai atrás de quem estimula a realizar-se, insinuando-lhe que o poderá fazer sozinha, sem a ajuda de Deus.

            Como é atual, tudo isto: A resposta de Eva separa os mandamentos de Deus e os desejos do mundo, e prefere estes últimos. Depois de ter cedido com a mente e o coração, violando o preceito, ei-la a passar aos fatos: a tentação transforma-se em ação, Eva toma e come.

            Diz a este propósito um comentador contemporâneo: “O mais simples é o ato, mais difícil é anulá-lo”. Deus experimentará a pobreza e morte de a palavra “tomai e comei” se tornar palavra de salvação. Estupendo comentário, digno de ser lido e meditado.

            E agora consideremos Maria quando, na plenitude dos tempos, ao Anúncio do Anjo, recebe o chamamento. Feliz por ser serva de Deus, vence as Suas naturais inclinações e as Suas dúvidas, firmemente convencida de que Ele A tornará apta a realizar a tarefa que a chama. Feliz por obedecer, acolhe como alegre acontecimento este chamamento divino. Como o pensamento de Eva tentada se traduz em ação, assim

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Eva sai das mãos de Deus inocente, pura, santa: “Adão e Eva estavam nus e não se envergonhavam”. (Gen. 2,25).

            Com maior razão, Maria, a “Bendita entre as mulheres”, por excelência,

Totalmente ilibada, puríssima, intacta, mais pura que os anjos, pura em todos tempos, a única plenamente pura, na afirmação dos Santos Padres da Igreja, é Imaculada desde a sua Concepção, conforme a doutrina revelada por Deus.

            A Concepção Imaculada de Maria é uma conseqüência da presença de Deus

Nela desde o primeiro instante da sua existência como pessoa humana, no seio materno “O Senhor é contigo!” É a presença de Deus em Maria que nela irradia a plenitude da graça: “Cheia de Graça!”.

            Assim, interpreta a Tradição da Igreja, falando daquela que é a redimida por excelência, em previsão da morte do seu Filho Redentor.

            “Maria foi de tal modo redimida pelo Filho de Deus Redentor, único mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem também que se entregou a si mesmo para a redenção de todos” (Tim. 2,3-6), que pecado jamais a tocou.

06- MARIA, A SERVA DO SENHOR.

Evangelho: Lc. 1,38-44; 56.

            Acabamos de contemplar Maria, a Imaculada.

            Como Imaculada, isenta de todo pecado, não deixa de ser também o que é agora. Vamos contemplar: Maria, a serva do Senhor.

            Jesus, “O Filho de Maria” é o “servo de Javé” que com seu próprio exemplo, deu o maior destaque ao espírito de serviço: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será o vosso servo, quem esperar a ser o primeiro nomeio de vós, será o vosso escravo, a exemplo do Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate para a humanidade”. (Mt. 20,26-28).

            Assim, durante a ceia... levanta-se  da mesa, tira o manto, toma uma toalha e cinge-se com ela. Depois, coloca água na bacia e começa a lavar aos pés dos discípulos e enxugá-los com a toalha com que estava cingido... Quando, pois, acabou de lavar-lhes os pés, tomou as vestes, tornou a sentar-se e lhes disse: Entendeis o que fiz convosco? Vos me chamais de “o Mestre” e “o Senhor” e dizeis bem, porque eu sou. Se, pois, eu o Senhor e Mestre vos lavaram os pés,

Também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu fiz, façais também vós”. (Jô. 13,2-15).

            Jamais alguém aprendeu tão bem e tomou tanto a peito a lição de Jesus, como Maria, sua Mãe.

            Maria foi, por excelência, a humilde serva do Senhor: “Eis aqui a serva do Senhor”. “Ele voltou os olhos para a humildade de sua serva”. (Lc. 1,38 e 48).

            Toda a sua vontade, durante toda a sua vida, foi servir ao Senhor, colocar-se à sua disposição, com a maior disponibilidade, generosidade, abertura de coração: “Faça-se em mim conforme a tua palavra”.

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07- MARIA, FELIZ PORQUE TEVE FÉ

Evangelho: Lc. 1,45

            Vimos, precedentemente, Maria a Serva do Senhor.

            Agora a veremos transbordante de fé, contemplando: Maria, feliz porque teve fé. O mesmo anjo da Encarnação, Gabriel, apareceu, em nome de Deus, a Zacarias e a Maria. Mais o comportamento de um e de outro é diferente.

            É pelo comportamento, pela atitude, que podemos avaliar a fé de cada um.

            Zacarias, embora vivesse com Isabel em oração, implorando a graça de um filho, quando Gabriel lhe anunciou que sua “súplica foi ouvida” , ele não acredita. Sua atitude é a de um incrédulo, pelo menos seu comportamento é de uma pessoa que duvida. Exige logo um motivo de credibilidade: “Como terei certeza disto? “E dá o motivo de incredulidade: “Pois sou velho e minha mulher, avançada em anos”.

            Gabriel o repreende e dá-lhe o motivo de credibilidade pedido, mas castiga-o com a mudez, porque não acreditou: “Eu sou Gabriel que permaneço de pé diante de Deus e fui enviado para falar-te a anunciar-te a boa nova. Pois bem, ficarás mudo e não poderás falar até o dia em que se realizarem estas coisas por não teres acreditado nas minhas palavras”. (Lc. 1,8-20).

            Maria, pelo contrário, na sua simplicidade e candura, estava com o coração aberto para aceitar a palavra de Deus e colocar-se à sua disposição. “Faça-se em mim conforme a tua palavra”. (Lc. 1,38).

            Gabriel lhe dá também um motivo de credibilidade, dizendo que Isabel, sua parenta, recebeu igualmente uma graça extraordinária: “Eis que Isabel, tua parenta, concebeu também um filho na sua velhice; e ela, que era chamada de estéril, acha-se no sexto mês. Porque nada é impossível para Deus”. (Lc. 1,36-37).

            Maria está certíssima desta verdade: “Nada é impossível para Deus!”.

            Maria partiu com pressa ao encontro de Isabel, a quem podia dar grande ajuda na sua gravidez avançada de seis meses, sendo-lhe, ao mesmo tempo, fácil verificar com os próprios olhos a veracidade da palavra de Gabriel.

08- MARIA GLORIFICA AO SENHOR

Evangelho: Lc. 1,46.55

            Acabamos de refletir: Maria, feliz porque acreditou.

            Acreditar nos leva a louvar e agradecer ao Senhor, de quem precede todas as coisas. Por isso, contemplando a mais agraciada de todas as criaturas, veremos agora: Maria, aquela que glorifica o Senhor.

            É o “Magnificat” O canto mais belo e de conteúdo mais profundo da Bíblia.

            Nele, Maria se coloca na posição de simples criatura, louvando o Criador, que se digna de olhar para a “humildade da sua serva”.

            A humildade é o ponto alto do canto belíssimo de Maria.

            Deus resiste ao soberbo e exalta o humilde: “Manifestou o poder do seu braço, dispersou os que se orgulhavam no íntimo do próprio coração. Derrubou dos tronos os

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São, acima de tudo, etapas de uma peregrinação nem breve nem fácil em direção a unidade: e, nesta peregrinação, Maria de Nazaré desempenha um papel importante, acompanham-nos a todos neste caminho, quaisquer que sejam os nossos pontos de partida.

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Jesus assume uma decidida posição defensiva, que o reverendo Dawe resume deste modo: “Dois aspectos do Evangelho servem como prova irrefutável à reta doutrina contra as tendências modernistas: o nascimento virginal e o túmulo vazio. Quem as rejeita nega também o mistério da encarnação, não obstante as afirmações em contrário. Barth refuta todas as tentativas modernistas de distinguir o nascimento virginal de Cristo-considerado imagem literária e mito da fé na encarnação. O nascimento virginal não é simplesmente a confirmação em linguagem figurada do vere Dues et vere homo (“ verdadeiro Deus e verdadeiro homem”), mas representa o próprio mistério da encarnação. A fé no nascimento virginal é a ligação necessária entre a iniciativa divina que torna possível a salvação, e a sua realização concreta, que a torna acessível. Em segundo lugar, o mistério da vere Deus et vere homo baseia-se, do lado humano, numa receptividade que é obra divina. E o nascimento virginal é a revelação disto mesmo, porque os poderes humanos são aqui irrelevantes. Mesmo a humilde aceitação por parte de Maria assenta na obra do Espírito Santo”.

            E Donald Dawe continua deste modo a síntese do pensamento de Barth: “Estas asserções são os dois lados de uma só medalha: a revelação de que a salvação em Cristo provém só de Deus. Também a nossa resposta à salvação tem lugar numa humildade garantida por Deus e pelo Espírito Santo. Nossa Senhora não é apenas Aquela que um dia gerou Jesus, de modo a que o acontecimento do vere Deus et vere homo fosse um fato da nossa história. É ainda Aquela que, no milagre da Sua virgindade, protege o mistério de Cristo da religião secularizada da modernidade. O Seu “SIM” ao chamamento de Deus é a porta aberta à salvação. Todos juntos dizemos: “Bendita és Tu entre as mulheres e bendito é o fruto do Teu ventre”. E não é um fato circunscrito ao primeiro século: “Maria é ainda aos nossos olhos através do testemunho da Escritura – a Mãe que gera e protege o seu Filho. Sem Ela, o mistério redentor de Seu Filho está perdido. Com Ela, é escolhido com alegria”.

            Este é um exemplo, um dos exemplos, do modo como alguns teólogos da reforma estão hoje, delineando a função de Maria. Há, portanto, uma aproximação de pensamento teológico das Igrejas Católica e Ortodoxa. Mas na naturalidade, é necessário também sublinhar a permanente divergência inicial, a contraposição dos pontos de partida. Para as Igrejas Católicas e Ortodoxas, juntamente e sob a obra santificadora de Deus, existe um espaço para o homem; há a possibilidade de uma intervenção do homem, certamente subordinada, que lhe permite colaborar ativamente na obra da Redenção. A doutrina da Reforma, como sabemos, pelo contrário nega esta possibilidade, tudo atribuindo à única e soberana iniciativa de Deus.

            E Karl Barth, precisamente, apresenta Maria como à prova viva da ausência de uma efetiva cooperação humana na obra da redenção. Quando sublinha a perfeita receptividade, por parte de Maria, da obra divina no momento da encarnação, considera uma receptividade toda realizada e concluída ali, naquele ato, sem alguma ulterior cooperação. É claro, portanto, que a concepção barthiana da relação de Maria com Cristo e com a Igreja não pode concordar com a doutrina católica e ortodoxa. O caminho ecumênico é longo. Encontros e diálogos não se podem comparar a congressos diplomáticos, destinados a concluir-se com a assinatura de tratados. Eles

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Poderosos e exaltou os humildes. “Saciou de bens os famintos e aos ricos despediu de mãos vazias”.

            A humildade evangélica que Maria exalta, é uma atitude fundamental dos autênticos discípulos de Jesus, seu Filho.

            O próprio Jesus se propõe como modelo da humanidade: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”. (Mt. 11,29).

09- MARIA, E SEU FILHO PRIMOGÊNITO.

Evangelho: Lc. 2,1-7 MT. 2,1 e 3-5

            Até o presente, tratamos de Maria no seu relacionamento com a família Divina da Santíssima Trindade, com a família humana de Zacarias, Isabel e João, como o Espírito Santo e com José; e Maria em si mesma, como a Imaculada, a Serva do Senhor, a Bem-aventurada porque teve fé e aquela que glorifica o Senhor.

            Assim, Maria se preparou admiravelmente para trazer ao mundo o Filho de Deus Encarnado, podendo agora ser contemplada num dos momentos mais felizes da sua vida, ela “a humilde serva do Senhor”, dando à luz o Filho único de Deus: Maria e seu Filho Primogênito.

            Os Evangelistas Lucas e Mateus nos colocam diante de um fato concreto, com ricos pro menores.

            O Filho do Eterno Pai, verdadeiro Deus, entra na História dos homens ao nascer, verdadeiro homem da sempre Virgem Maria.

            O fato se deu no tempo de Cirino, governador da Síria, quando César Augusto ordenou, por decreto, o recenseamento de todo império.

            Cada pessoa devia recensiar-se na sua cidade natal. Maria e José, ambos da estirpe de Davi, eram naturais de Belém na Judéia.

            Subiram, pois, de Nazaré, na Galiléia, até Belém da Judéia.

 

10- MARIA E OS PASTORES

Evangelho: Lc. 2,8-20

            Vimos precedentemente, Maria e o seu Filho Primogênito.

            Jesus nasceu no mais profundo silêncio, apenas adorado por Maria e José. Agora, veremos chegar de fora novos adoradores, abordando: Maria e os Pastores.

            O fato concreto do nascimento de Jesus, Salvador do mundo, que tanto alegrou Maria e José, seus primeiros adoradores, desencadeou novos acontecimentos, repletos uns do maior júbilo e outros de grande dor, como veremos nos estudos seguintes, focalizando simultaneamente os mistérios alegres e dolorosos da vida de Jesus, aos quais Maria se associou plenamente, com vínculo indissolúvel.

            Estamos diante da revelação dos profundos mistérios da Encarnação e da

Redenção do Filho de Deus as pessoas muito “simples”, humildes, disponíveis, dedicadas, de coração aberto, “pobres de espírito”.

            São sempre essas pessoas escolhidas por Deus para mensageiros da boa nova, da “misericórdia e ternura de Deus”;

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            Como aconteceu com Maria, a simples Virgem de Nazaré e a “humilde serva do Senhor”, assim foi com os pastores que “passavam a noite na guarda do seu rebanho”, num serviço muito simples e humilde, mas que exigia deles muita generosidade, dedicação, disponibilidade.

Do mesmo modo aconteceu sempre com os humildes e simples, “os amados “do Senhor, como Zaqueu e Mateus, Pedro e Paulo, Lázaro, Marta e Maria, Nicodemos e José de Arimatéia, a Samaritana e a pecadora de Magdala, o bom ladrão Dimas e o centurião da corte itálica, Cornélio.

            A escolha dos “Pastores” como os primeiros, vindos de fora, que “glorificaram e louvaram a Deus” na pessoa do seu Filho Encarnado, é patente a demonstração da predileção do Senhor pelos “pobres de espírito”, pelos humildes de coração, pelas pessoas simples: “Eu te louvo e agradeço, ó Pai do céu e da terra, porque ocultastes essas coisas aos sábios e aos sagazes e as revelastes aos simples”. (Mt. 11,25).

11- MARIA E A CIRCUNCISÃO DO SEU FILHO

Evangelho: Lc. 31, 2,21 Mt. 1,20-21

            Acabamos de considerar, na alegria do nascimento de Jesus, Maria e os Pastores.

            Veremos, agora, se entrelaçarem os mistérios da alegria de Jesus com os adoradores, contemplando: Maria e a Circuncisão do seu Filho Jesus.

            Depois do nascimento do Redentor, que transbordou de alegria Maria, José e os Pastores. Passados oito dias, Maria levou com José o menino para a Circuncisão, dando-lhe o nome revelado pelo anjo Gabriel em nome de Deus: “Chegando o oitavo dia, no qual o menino devia ser circuncidado, foi-lhe dado o nome de Jesus”.

            Com a primeira gota de sangue da Circuncisão, misturam-se aos mistérios da alegria os mistérios da dor do Salvador do Mundo.

            Na Circuncisão, “o nome de Jesus” foi dado ao Filho de Deus feito homem, nascido da Virgem Maria, ao mesmo tempo, pelo Pai Eterno, por Maria e José.

            Em nome do Pai, o anjo escolheu o nome do Menino antes de ser concebido em Maria. “Foi-lhe dá o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido no seio materno”.

            Por sua vez, Maria recebe ordem de dar o mesmo nome ao menino: “Eis que conceberás e darás a luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus”.

            José, “esposo de Maria” e substituto do Eterno Pai, recebe igualmente a ordem: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa... Ela dará à luz um

“Filho, a quem porás o nome de Jesus”.

            “Jesus” significa “Salvador!” “Porque ele salvará o seu povo de seus pecados”.

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            Tinha nascido no mundo acadêmico reformado uma corrente de pensamento que tendia a criar uma espécie de cristianismo laico, embarcando a chamada visão “científica” do mundo e nas novas teorias da crítica histórica. E chegou-se a ponto de negar fundamento histórico a grande parte das narrações bíblicas, compreendidos os milagres de Jesus e a Sua morte-expiação. Do mesmo modo se negava a Ressurreição, apresentando-a não como um fato, mas como a idealização de outro fato. Dizia-se: como a figura de Jesus teve uma influência incessante nos Seus sequazes depois da Sua morte e ao longo de todos os tempos, o persistir da Sua influência foi matizado e transfigurado na ressurreição. E assim aconteceu também com o seu nascimento virginal: foi definido como algo de puramente imaginário, uma invenção para atribuir a Jesus as duas naturezas de Deus e de Homem.

            A teologia reformada tradicional opôs-se com energia à nova corrente (enquanto também no mundo católico aqueles princípios desencadeavam a violenta crise do chamado modernismo). E atacou, sobretudo as afirmações acerca do nascimento de Jesus Cristo, defendendo com veemência a fé na conceição virginal, afirmando que “se a Bíblia é considerada enganadora no que diz sobre o nascimento de Cristo, então a sua autoridade perde todo o valor também a respeito de qualquer outro argumento”. A nova interpretação, de fato, constituía um novo desafio aos próprios fundamentos da Igreja reformada, cuja doutrina se baseia e unicamente, na autoridade das afirmações bíblicas.

            Foi esta controvérsia que trouxe de novo o argumento – Maria para as discussões teológicas do mundo cristão reformado, reacendendo o interesse e o estudo acerca da Sua figura. No entanto, nada mudou a Seu respeito quer na devoção quer na liturgia, que continuava a ignorá-la.

            A situação só mudou recentemente (e ainda de modo indireto, no início) com o desenvolvimento do ecumenismo. Este foi, e é, o fator novo. Impulsionados por ele, muitos ambientes do cristianismo não católico, da Reforma, deram algum lugar à Virgem na religiosidade e na vida espiritual. E, com efeito, não se pode enfrentar o diálogo sincero entre as Igrejas se não se enfrenta ao mesmo tempo o problema de Nossa Senhora e da sua função.

            A luz de tudo isto é bastante interessante a ação empreendida pelo professor Donald G. Dawe, da Igreja reformada, docente de teologia do UNION THEOLOGICAL SEMINARY de Richamand, nos Estados Unidos, e ativo expoente na América, da Sociedade Ecumênica da Bem-aventurada Virgem, cujo nome indica o programa. O reverendo Dawe, que desenvolve a sua atividade resumindo-a na seguinte frase: “Maria, eterna Genetriz de Cristo”, faz referência ao pensamento de Kral Barth, o grande teólogo suíço, falecido em 1968, que influenciou consideravelmente a teologia protestante contemporânea, suscitando vasto interesse e estudo também no mundo católico.

            Barth opôs-se decididamente às tendências modernistas, como sistema que chega a excluir a possibilidade de revelação; e sobre o tema da conceição virginal de

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             CAPÍTULO V

 

             MARIA E OS TEÓLOGOS DA REFORMA

 

              William Burring

João Calvino acreditava firmemente na conceição de Jesus Cristo por obra do Espírito Santo no seio de Maria, à qual dava sem hesitação o título de “Mãe de Deus”. Podemos confirmá-lo a partir dos seus escritos e dos documentos redigidos pelos seus sequazes: para eles, o nascimento de Jesus de uma Virgem era um fato histórico comprovado.

A primeira grave divergência entre a Reforma e a Igreja católica acerca de Maria, estava noutro ponto. É que, segundo os reformadores, a missão de Maria deveria considerar-se realizada e concluída no momento da Anunciação, isto é, no momento em que Ela aceitou ser Mãe de Jesus Cristo, rejeitavam, portanto, a idéia de Maria como meio permanente, contínuo, através do qual a graça de Deus é transmitida à alma do crente.

A doutrina da Reforma fundava-se, de fato, neste princípio: o homem não tem nenhuma possibilidade de conseguir a salvação através das suas obras. O único veículo de graça é a ação direta do Espírito Santo, que age invisível e livremente no coração dos eleitos: daqueles que, desde toda a eternidade, Deus predestinou para a salvação, segundo a Sua vontade imprescindível. Então, se nenhum homem pode fazer alguma coisa para se salvar, tanto menos uma criatura pode fazer alguma coisa pela salvação de outra criatura. Calvino chega mesmo ao ponto de denunciar como ímpio “o culto dos Santos, simples seres humanos para obter uma salvação que provém unicamente de Deus”. Conseqüentemente era completamente inaceitável a atribuição a uma criatura humana, Maria, de um poder de uma capacidade de interceder junto a Deus. Mas tal coisa parecia aos reformadores uma negação da soberania divina ou, pelo menos, uma sua diminuição, a rejeitar terminantemente.

Sendo estas as promessas, a conseqüência foi à exclusão de Maria da liturgia e da devoção. E assim, com o desaparecimento do Seu culto, também a figura de Nossa Senhora perdeu rapidamente interesse aos olhos dos teólogos reformados. Esta situação não mudou durante longo tempo, até o fim do século XIX, quando de modo indireto e inesperado a atenção de muitos se teve de dirigir de novo para a Mãe de Deus.

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12- MARIA APRESENTA JESUS NO TEMPLO

Evangelho: Lc 22,38

            Vimos, precedentemente, Maria e a Circuncisão do seu Filho Jesus.

            Agora, continuando tudo que a lei do Senhor ordenou a respeito do Filho “Primogênito” contemplaremos: Maria e a apresentação de Jesus no Templo.

            O Filho de Deus, fazendo-se Homem e nascendo da Virgem Maria, torna-se semelhante a nós em tudo, exceto no pecado, e por isso submete-se à Lei a fim de nos conquistar a “dignidade e liberdade de filhos de Deus”.

            Como vimos no estudo 09, Jesus como “Filho Primogênito” de Maria Virgem, tinha direitos e deveres especiais.

            Por isso, “quando chegou o dia em que, segundo a Lei de Moisés, deviam ser purificados” Maria e José “levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor, de acordo com o que está escrito na Lei do Senhor, um par de rolinhas ou dois pombinhos”.

            Era uma oferta que se fazia a Deus, reconhecendo-o com o Senhor de tudo, a modo do que se faz atualmente por ocasião do batizado de uma criança.

            O Evangelho de Lucas nos apresenta um profeta e uma profetisa: O profeta era “um homem chamado Simeão”. E a “profetisa Ana” era uma mulher de “oitenta e quatro anos”.

            Ambos se achavam no templo na hora da apresentação do Menino Jesus e exultaram de alegria, pela felicidade de contemplarem como os próprios olhos o Salvador do Mundo.

13- MARIA E OS MAGOS

Evangelho: Mt. 2,1-12

            Acabamos de ver a apresentação de Jesus no templo.

            A profecia de Simeão nos abriu a grande perspectiva ecumênica, que começa a se concretizar nos não-judeus, como veremos agora: Maria e os Magos.

            O presente estudo, riquíssimo de ensinamentos, nos faz sentir, nas pessoas dos Magos, a realização da profecia de Simeão, relativamente à universalidade da salvação: Jesus, “o recém-nascido rei dos judeus”, “Luz que ilumina as nações”, é o Salvador de todos os povos”. (Lc. 2,31-31).

            A solenidade da Epifania do Senhor ou manifestação de Jesus a todos os povos, chamada de “Festa dos Reis Magos”, celebrada na Igreja universal, a 06 de janeiro, é antiguíssima e evoca a universalidade da salvação e revelação do Filho de Deus feito homem, nascido da Virgem Maria, a todas as nações, ao Mundo.

A Epifania é o dia em que comemoramos a nossa vocação de gentios à fé cristã. Nós, que não pertencemos à nação judaica, estamos incluídos no rol das outras “nações” e festejamos na Manifestação do Senhor o dia da nossa adesão a Jesus Cristo, “pela fé”, preparando-nos, nessa peregrinação terrestre para “contempla-lo um dia face a face no céu”.

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14- MARIA E A FUGA PARA O EGITO.

Evangelho: Mt. 2,13-15

 

            Vimos no estudo precedente, Maria e os Magos.

            Nas pessoas dos ilustres astrólogos, vindos do Oriente à Palestina para adorarem “o recém-nascido rei dos judeus”, parece ser a universalidade da salvação, “a vocação dos gentios à fé, o tema central da Igreja primitiva no episódio dos Magos”.

            Em sua defesa surge o Anjo Gabriel, obedecendo aos desígnios da divina providência. “Depois que os Magos partiram, aparece a José um anjo do Senhor, dizendo: “Levanta-te, toma o menino e sua Mãe e foge para o Egito”.

            Aqui, aparece com destaque a figura de José, conforme o estudo 04, como substituto do Eterno Pai, junto do Filho de Deus encarnado, nascido da Virgem Mãe, sua esposa.

            “Assumindo a missão de chefe da Sagrada Família, como veremos no estudo 18, José se responsabiliza pela guarda e defesa do “Menino e sua Mãe”; tomando para si todas as providências, de acordo com a ordem do anjo:” Levanta-te, toma o menino e sua Mãe e foge para o Egito.

            José, como Maria, está também estreitamente associados aos mistérios da Encarnação e da Redenção de Jesus.

            Com fé admirável, aceita algo de incompreensível: “Toma o Menino e sua Mãe, e foge para o Egito”.

            Não é Jesus o Filho de Deus? O onipotente? Por que não esmagar seus inimigos?

            “Foge para o Egito”. Fugir? Fugir para uma região desconhecida? José não duvida da palavra de Deus e se dispõe a tomar parte generosamente no mistério da misericórdia divina, no mistério da Redenção do mundo que, depois da humilde pobreza da gruta de Belém, vai se avolumando com a primeira perseguição de Herodes. Padece o Menino, padece Maria, padece José, todos três estreitamente associados aos insondáveis mistérios da salvação da humanidade, através da cruz que nos conquista a dignidade e liberdade de filhos de Deus.

            Anjo motiva José: “Porque Herodes procura o Menino para matar”.

            Mas, Herodes, por mais poderoso que pareça, como mortal criatura está nas mãos do Criador que, se quisesse o poderia fulminar.

            “Matar o recém-nascido rei dos judeus?” Por quê?

            Incompreensível mistério da Redenção! É o mistério da dor, do sofrimento, a respeito do qual todos nós indagamos constantemente, a toda hora: Por quê?

            Por que Jesus sofreu e morreu na cruz? Por quê?

Para Jesus, Maria e José, para todos nós, continua o profundo mistério da Redenção. É através da dor, do sofrimento, da cruz, que todos nós somos purificados, santificados, salvos.

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Maria, na Igreja etíope, é celebrada especialmente como o lugar da divina misericórdia. Porque, lemos nos textos desta comunidade, entre Cristo agonizante e a Mãe conclui-se um “pacto de misericórdia” a favor dos necessitados e dos pecadores: é o “pacto” que torna firme a esperança de todos: “Ó Maria, cuja tarefa é amar os homens... a Tua oração nos guarde de noite e de dia”. 

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O ano litúrgico armênico inclui as festas maiores a da Natividade de Maria e a da Anunciação, mas todas as festas marianas são entendidas como festa do Senhor. Considera-se como “dia de Maria” a quarta-feira, em recordação da Anunciação que inspirou entre outras esta oração: “Esposa, que a Terra ofereceu o Céu, a Ti elevamos os nossos corações. Reza, para que no dia em que recebeste o anúncio da encarnação nós possamos escutar do Teu filho o outro anúncio: “Vinde, benditos do meu Pai: “Todas as missas se iniciam colocando o povo e o celebrante sob a proteção da Virgem: “Por amor da Santa Mãe de Deus, acolhe-nos, ó Senhor, as nossas orações, e salva-nos”. Assim, também, Maria está presente no ofício quotidiano das horas, recorda sempre com palavras de alegria: “Alegra-te, Maria, Mãe da Luz, terra nova, morada do Sol: Reza por nós. “Exulta, aurora vivente, de quem nasceu Cristo, luz dos nosso olhos: intercede por nós”.

d) Igreja copta (egípcia) – Como já sabemos, o Egito foi o berço da veneração a Maria. Aqui nasceu o termo Theotókos (Mãe de Deus) que depois o Concílio de Éfeso fez seu. Aqui nasceu em grego a mais antiga invocação a Maria, conhecida no Ocidente no texto latino que inicia com as palavras Sub tuum praesidium. Aqui, também, se desenvolveu bastante cedo uma iconografia Mariana e se difundiram as narrações populares acerca da vida e dos milagres da Virgem: um patrimônio vastíssimo, em grande parte preservada, não obstante as perseguições árabes. Muitos são ainda os mosteiros e os santuários dedicados a Maria, sempre sob o título de “Mãe de Deus e Virgem”. Outros santuários recordam a permanência no Egito de Maria com Jesus Menino e com José, e são freqüentados também por mulçumanos. A liturgia eucarística, das festas e das horas superabunda de antífonas, de cantos e de louvores marianos; e também os cristãos coptas foram os primeiros (desde o século VIII) a celebrar um “mês mariano” (em dezembro) com um ofício quotidiano próprio. Um antigo cântico egípcio à Virgem diz: “Esta é a celeste Jerusalém, a cidade do nosso Deus, Tu és o segundo céu”.

e) Igreja etíope- A maior parte dos homens, na Etiópia, usa o nome de Maria unido a outros, ou composto em frases como “Esperança de Maria, “Alegria de Maria”. O povo etíope é provavelmente o mais “mariano” do mundo. Também a liturgia vê Nossa Senhora continuamente presente, com as numerosas festas em Sua honra, os ofícios que lhe são dedicados, os hinos (para não falar do vasto patrimônio poético e narrativo de que Ela é protagonista). No ordinário da Missa e nas numerosas orações eucarísticas (anáforas) é dado um grande espaço a Mãe de Deus. Mais: a Ela são dedicadas duas anáforas, único exemplo no mundo cristão, como se o Seu mistério servisse de trama à história da salvação prolongada no rito eucarístico e de guia aos fiéis para aceder aos mistérios sagrados. Cantando a encarnação, uma destas orações exprime-se poeticamente assim: “Ó Virgem, que trouxeste no ventre o fogo devorador (o Seu rosto é Fogo a Sua veste é Fogo, o Seu esplendor é Fogo), como é que não Te incendeias? E onde é que foram afixados, ligados e estendidos no Teu seio os sete pavilhões de fogo, se o teu corpo é tão pequeno?”

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15- MARIA E A MATANÇA DOS INOCENTES

Evangelho: Mt. 2,16-18

            Vimos precedentemente, Maria e a fuga para o Egito.

            Agora, veremos a matança dos Inocentes.

            Depois de se cumprir a profecia de Simeão, pela “espada” do exílio e da fuga para o Egito, a qual “transpassava a alma” de Maria, outra “espada” de dor amargura seu coração: a terrível matança de crianças inocentes, ocasionada pela vinda de seu Filho, “o recém-nascido rei dos judeus”.

            Herodes, ludibriado pelos Magos, que “volta por outro caminho”, enfureceu-se: “Quando Herodes notou que havia sido iludido pelos Magos, encheu-se de grande furor”, o que é propício de todo tirano presumido do seu poder, soberba e arrogância.

            A matança dos inocentes de Belém e arredores foi um episódio de horror para as suas desventuradas mães: “Verificou-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias: Ouviu-se um clamor em Ramá, pranto e lamentação: Raquel a chorar seus filhos, sem permitir que a consolem, porque não existem mais!” (Jer. 31-15).

            O quadro é, deveras, doloroso: crianças inocentes degoladas e ceifadas à vista das próprias mães desoladas, que as acariciavam e amamentavam! “Rama foi um dos centros onde se reuniam os prisioneiros que seriam deportados para a Babilônia”, num doloroso exílio. “Segundo o Evangelho, análoga situação se repetia agora em Belém no

Sofrimento das mães, que viram seus filhos serem arrebatados e passados a fio da espada, “ouve-se um eco materno lamento de Raquel” , sofrendo, gemendo, lamentando-se pelos seus dois filhos, Benjamim e José, arrastados ao exílio da Babilônia. 

16- MARIA VOLTA PARA A TERRA DE ISRAEL

Evangelho: Mt. 2,19-23 Lc. 2,39-40

            Vimos, no estudo precedente, Maria e a Matança dos Inocentes.

            Veremos, agora: Maria e a volta para a terra de Israel.

            O presente estudo e os dois seguintes – Maria e a procura do Menino Jesus em Jerusalém, e Maria e a Sagrada Família de Nazaré- formando um todo, dão mais ênfase aos mistérios da alegria de Jesus, Maria e José, como o nascimento com os Pastores e os Magos, mas sempre interlaçados com os mistérios da dor, com a perda do Menino Jesus em Jerusalém, do mesmo modo que antes “transpassou a alma de Maria a espada” da fuga para o Egito e matança dos inocentes.

É que, “gemendo e chorando neste mundo de angústias”, em nossa peregrinação terrestre, não há rosas sem espinhos, nem vida sem morte, nem alegria sem dores, porque “sem a dor não se vive no amor” fonte de toda alegria.

            Os Evangelistas Mateus e Lucas nos transportam para a Galiléia, onde Jesus viverá cerca de trinta e três anos, fará seu primeiro milagre, pregara a boa nova da

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Salvação e escolherá seus primeiros discípulos e apóstolos.

            A “terra de Israel” naquele tempo correspondia à palestina.

            No tempo de Jesus, a Palestina estava dividida em três províncias: No sul, a Judéia, onde Jesus nasceu e morreu. No Centro, a Samaria, por onde Jesus passava rapidamente. E ao Norte, a Galileia, onde permaneceu quase toda a vida.

            Herodes, chamado o Grande, dominou toda a Palestina, mas chegada há sua hora, morreu: “Após a morte de Herodes”.

            O homem vem da terra e a terra voltará. Vive pouco. E com ele, morre sua maldade, crueldade, perseguição, perversidade e impertinência.

17- MARIA PROCURA O MENINO JESUS EM JERUSALÉM

Evangelho: Lc. 2,41-50

            Vimos precedentemente, Maria e a volta para a terra de Israel.

            Veremos, agora: Maria e a procura do menino Jesus em Jerusalém.

            Conforme o último estudo, por circunstâncias providenciais, Jesus, Maria e José fixaram residência em Nazaré, na Galileia, província da Palestina, aonde vai se

Desenrolar a maior parte dos acontecimentos da vida da Sagrada Família.

            O Evangelista Lucas, a partir do regresso do Egito para Nazaré, menciona um episódio rico de reflexões ocorrido na província da Judéia, em Jerusalém.

            Foi por ocasião da grande festa judaica, a Páscoa, e Jesus já estava com doze anos de idade: “Iam seus pais todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa, Quando Jesus completou doze anos, subiram, como de costume para a festa”.

            A Páscoa dos Judeus constituía a sua maior solenidade. Era comemorada anualmente, para louvar e agradecer ao Todo Poderoso os prodígios que operou em favor de seu povo eleito, a fim de o libertar da escravidão do Egito. Era, pois e comemoração da liberdade e independência do Antigo Povo de Deus. Como a nossa Páscoa Cristã, era “o dia que Deus fez”, por excelência, dia de vitória e alegria, em que comemoramos o triunfo da Ressurreição do nosso Divino Redentor, sua vitória sobre o pecado, a morte e o mundo. Vitória que conquistou para o Novo Povo de Deus “a dignidade e liberdade de filhos de Deus”, com direito à participação, um dia, “como herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” da glória eterna, na visão face a face do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

18- MARIA E SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ

Evangelho: Lc. 2,51-52

            Vimos no estudo precedente, Maria e a procura de Jesus em Jerusalém.

            Agora, veremos: Maria e a Sagrada Família de Nazaré.

            Tema riquíssimo em ensinamentos, de muita atualidade, enfatizando a Família Modelo aqui na terra.

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“Como o Sinal Eu te trouxe, e não fui incendiada pelo teu fogo tremendo: a Tua chama não me queima”. A linguagem de Santo Efrém inspirou depois gerações de outros hinógrafos, e os próprios teólogos se servem abundantemente destas imagens e comparações nos seus tratados.

            No ano litúrgico desta Igreja há três grandes festas marianas: A primeira recai a 26 de dezembro e chama-se “das congratulações”. Tal como se vai felicitar toda a Mãe que dê a luz uma criança, assim os fiéis vão apresentar as suas felicitações a Maria que gerou Jesus. No dia 15 de maio celebra-se a festa de “Nossa Senhora das sementes”, implorando a proteção de Maria a favor das colheitas. Por fim, temos a maior das festas: 15 de agosto, a Assunção, precedida por sete dias de jejum.

            Nesta solenidade, os fiéis oram assim: “Senhor, torna-nos dignos, pela tua misericórdia, de nos alegrarmos com Ela na vida que não tem fim”.

b) Igreja Síro-Jacobita – (Siríaca Ortodoxa de Antioquia). O segundo nome deriva do Bispo Jacob Baradai, que no século VI a reorganizou hierarquicamente. Acerca do culto mariano nesta comunidade, a arqueologia, a epigrafia e a iconografia trouxeram à luz abundantes testemunhos. A Mão de Deus é uma presença constante no ciclo da vida e das estações. As grandes festas em sua honra são as comuns ao mundo católico romano e ortodoxo; além disso, existe uma memória da Virgem toda especial, típica desta Igreja, que se celebra habitualmente todos os meses, no dia 15. A liturgia recorda-A com freqüência: invoca-A quando comemora os Santos e quando no rito eucarístico, incensa os dons oferecidos no altar: “No aroma deste incenso esteja a Virgem Maria, Mãe de Deus...”. Os maiores doutores siro-jacobitas – Tiago de Sarug e Severo de Antioquia, do século VI – são também grandes cantores da Virgem. Na oração litúrgica quotidiana recitam-se ainda hoje os versos de Tiago de Sarug: “Filha de pobres, tornou-se Mãe do Senhor dos Reis, trouxe riquezas ao mundo pobre, para que viesse... A representar o Céu e a Terra, dois se sentaram, disseram, ouviram, assinaram a paz entre os desavindos... Em lugar da serpente, levantou-se Gabriel; em lugar de Eva, a escutar levantou-se Maria. Paz deu o anjo a Maria, como penhor de grande paz para todo o mundo”.

c) Igreja Armênia – Os fiéis desta comunidade residem na sua maior parte nas repúblicas soviéticas da Armênia e da Geórgia, com outros grupos no Irã, na Turquia, no Líbano, em Chipre, na Grécia e com uma diocese de emigrados também na América do Norte. Os cristãos Armênios foram os melhores tradutores do patrimônio literário grego e siríaco, que entrou a fazer parte da sua cultura; mas tiveram também eles seus grandes autores, a partir pelo menos do século VIII (século X) Nerses o gracioso e Nerses o monge de Lampron, ambos do século XII, que escreveram homilias e orações e cantos escolhidos na liturgia.

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             CAPÍTULO IV
 

             MARIA E AS IGREJAS NÃO-CALCEDONIENSES

Hermano M. Toniolo.

            Chama-se “não-calcedonienses” algumas comunidades cristãs que se separaram do tronco unitário da Igreja ainda antes do cisma do Oriente, já no século V e VI, e que ainda hoje continuam vivas, separadas do mundo católico. Na antiguidade, os Bispos e teólogos desta comunidade afirmavam que depois da encarnação e natureza divina e a humana de Jesus Cristo ter-se-iam fundido formando “uma só natureza”. Pelo contrário, o Concílio de Calcedônia, em 451, tinha dito: “Um único Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, mas em duas naturezas: sem confusas, sem mutação, sem divisão”. Porque não acolhiam a doutrina definida, aquelas comunidades foram chamadas “não-calcedonienses”. E são ainda hoje quatro: Igreja Síria ou Jacobita; Igreja Armênia; Igreja Copta, isto é, do Egito; Igreja da Etiópia. Se junta a estas também a Igreja Assíria ou Caldaica, igualmente separada de Roma e Constantinopla, que ainda antes das outras se tinha tornado autônoma, também por razões de sobrevivência (esses cristãos, na verdade, viviam sob o domínio persa, sempre em luta com o Império do Oriente).

            Vejamos agora o lugar que a Virgem Maria ocupa na vida das cinco Igrejas, do ponto de vista da doutrina e do ponto de vista da liturgia.

Igreja Assíria ou Caldáica – É chamada impropriamente de “nestoriana”, do nome famoso do patriarca de Constantinopla Nestório, que negava a maternidade divina de Maria e que foi condenado em 341 pelo Concílio de Éfeso. Na realidade, os cristãos desta Igreja conservam uma grande veneração pela Virgem Maria. Pastores, estudiosos, historiadores e hinógrafos do século VIRAM ao século XIV exaltaram-na constantemente. Mas não só: eles consideram como seu máximo doutor Santo Efrém da Síria (Séc. IV) cujo hinos fazem ainda parte da liturgia caldaica. Santo Efrém celebra em Maria a beleza interior, a virgindade, a vida intemerata, o prodígio da maternidade que A coloca mediadora entre a Terra e o Céu, mãe espiritual dos homens; mas, sobretudo canta, com estupendas estrofes, o êxtase da Mãe diante do Filho recém-nascido: “Sem o Espírito, quem poderia cantar-te? Uma voz da profecia nasce dentro de mim... Eu transformei-me num porto por causa de Ti, ó grande Maria!...

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            O último estudo nos deixou a observação de Lucas: “Mas eles – Maria e José não compreenderam o que Jesus lhes disse”

            Apesar de não se sentir compreendido pro Maria e José que, “comovidos” e “aflitos” o procuram durante três dias, até encontrá-lo no meio dos doutores no Templo de Jerusalém, Jesus “desceu, então, com eles de volta para Nazaré”.

            Era o ótimo Filho que, sem discutir, volta com os pais para a casa em Nazaré, na Galileia.

            E, com pouquíssimas, mas expressivas palavras, o evangelista resume a atitude de Jesus durante cerca de trinta anos ao lado de Maria e José, na Sagrada Família de Nazaré: “E era-lhes submisso!”

            O mistério do Criador, o Filho de Deus, o Todo-Poderoso, o Mestre e Senhor de todos, curvando-se diante de duas criaturas, submetendo-se a Maria e a José: “E era-lhes submisso!”.

            Na Redenção dos homens, perdidos pela própria desobediência, a obediência do Divino Salvador a simples criaturas, até a morte de cruz., é o que há de mais profundo e misterioso: Jesus, “existindo com natureza de Deus, não reteve para si com ciúme o ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a natureza de

Escravo e fazendo-se semelhante aos homens; e sendo obediente até a morte de cruz!” (Flp. 2,6-8).

            Com sua atitude de obediência a Maria e a José, Jesus patenteia o sagrado dever do filho de obedecer aos pais, de “honrar pai e mãe”.

            Jesus, obediente, “submisso a Maria e José”, foi patenteando a todos sua educação, seu desenvolvimento admirável: Quanto a Jesus, crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.

19- MARIA E O PRIMEIRO MILAGRE DE JESUS.

Evangelho: Jo. 2,1-11

            Vimos no último estudo, Maria e a Sagrada Família de Nazaré.

            Veremos, agora: Maria e o primeiro milagre de Jesus.

Continuaremos, aqui, apreciando o espírito de família. Desta vez, na família dos noivos de Canaá da Galileia.

            Jesus ia começar seu ministério público, enquanto João Batista acabava de dá-lo a conhecer aos seus discípulos: “Eis o Cordeiro de Deus! Aquele que tira o pecado do mundo!” (Jo. 1,19).

            Jesus escolheu seus primeiros apóstolos: André e Simão Pedro, Felipe e Natanael. (Jo. 1,40-51).

            Três dias depois, realiza-se um casamento na Galileia, na Cidade de Canaá, pouco distante de Nazaré.

            Maria é convidada, como também Jesus e seus primeiros discípulos: “Realizaram-se, ao terceiro dia, uma boda em Canaá da Galiléia e lá estava a Mãe de Jesus. Foram também convidados à festa Jesus e seus discípulos”.

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            Aqui, é patente o espírito de abertura da Sagrada Família de Nazaré.

            Evangelho silencia, nesta altura dos trinta anos, mais ou menos, de Jesus, José já falecera. São mencionados apenas Jesus e Maria.

            Estes deviam ser muitos conhecidos da família de Canaá, para serem convidados à festa e até poderem levar os discípulos.

            A abertura numa família é algo fundamental.

            O Deus que servimos e adoramos não é um Deus egoísta, mas um Deus único na Trindade das Pessoas do Pai, Filho e Espírito Santo, como vimos no primeiro estudo.

            Um Deus aberto: doação, comunicação e participação.

            E o homem, criado á imagem do Deus Uno e Trino, é por natureza, um ser social, aberto para os outros: para o Grande Outro, que é Deus, e para todos os outros que são sua imagem viva, nas pessoas de nossos próximos.

            Maria, com seu espírito de abertura, devia conhecer muitas famílias, mantendo com elas laços de delicada e autêntica amizade, a exemplo do que vimos na sua atitude cordial com a família de Zacarias, Isabel e João, conforme o estudo 02.

            Maria até conhecia a intimidade desse lar, chegando a perceber que, com a afluência dos convidados, os nubentes não tinham mais vinho para tanta gente e iriam passar por um vexame.

            Resolve, então, com Medianeira, advogar por eles junto ao seu divino Filho: “Estando para acabar o vinho, a Mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho”. 

20- MARIA, FELIZ PORQUE OUVIU A PALAVRA DE DEUS E A PRATICOU.

Evangelho: Lc. 8,19-21.11,27-28 MT. 12,46-50

            No estudo precedente, vimos Maria e o primeiro milagre de Jesus. Contemplaremos agora: Maria, feliz porque ouviu a palavra de Deus e a praticou.

            Terminando o último estudo enfatizando a máxima de Maria relativamente à nossa atitude diante de Jesus: “Fazei tudo o que ele vos ordenar”. (Jo. 2,5).

            Saindo do ambiente festivo da família dos noivos de Cana que celebram seu casamento, entramos no grande ambiente da família espiritual de Jesus, quando ele falava a esta junto ao lago de Ganazaré ou Tiberíades, também chamado “mar da Galiléia”, por suas ondas constantes, levantadas pelos ventos fortes da região.

            É nesse cenário maravilhoso e agradável que Jesus intensifica a pregação da boa nova, trazendo fé, esperança e amor, paz, alento e confiança às multidões sedentas da palavra de Deus.

            Nesta altura, é provável que, a fim de facilitar a pregação do Evangelho junto ao “mar da Galiléia”, Jesus já tivesse se transferido de Nazaré para Cafarnaum, as margens do mesmo “mar” ou lago. Os três evangelistas, Mateus, Marcos e Lucas

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Os quais desde Adão prepararam o caminho ao Messias.

            O “Credo” da Igreja ortodoxa, depois, exprime-se também numa outra forma característica: nos ícones. E principalmente no seu uso litúrgico.

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Pressupõe uma intervenção divina imprevista e drástica, que interrompe aquele longo processo; de modo que a Virgem deixaria de partilhar do destino da humanidade caída, e alhear-se-ia do Antigo Testamento com os seus Santos; debilitar-se-ia, pois a sua ligação com o gênero humano que viveu antes de Cristo; e ficaria obscurecido o verdadeiro significado da sua resposta ao Anjo da Anunciação (de fato naquele momento, Ela falou em nome de todos os Santos do Antigo Testamento).

            O segundo motivo de discordância é mais geral: os ortodoxos não consideram o pecado original no sentido usado pela definição dogmática da Imaculada Conceição por parte de Pio IX. Não o consideram como uma culpa de Adão, herdada por todos os homens, e pela qual são culpados aos olhos de Deus. Vêem-no como uma escravidão da humanidade sob o domínio do demônio, passagem para a doença, a dor física, a morte; e em certo sentido um enfraquecimento da vontade na resistência ao mal. Ora, dado que o pecado original, assim entendido, não torna uma criança culpada aos olhos de Deus, os ortodoxos não consideram necessário que Maria de Nazaré seja dele isenta. Deste modo, a questão da Imaculada Conceição nem se quer se põe. E as conseqüências do pecado original pressupostas pelos ortodoxos, segundo eles, não são incompatíveis com a total santidade de Maria requerida pela sua maternidade divina.

            Uma outra divergência entre o Oriente e Roma diz respeito à doutrina da Assunção. A Igreja ortodoxa não tem nenhuma dificuldade em aceitar a assunção corpórea de Maria: como seu Filho, Ela experimentou a morte física e depois foi elevada ao céu pelo poder divino de Cristo. O Credo cristão acerca do destino eterno no céu compreende a alma imortal e o corpo ressuscitado: e a Assunção significa que a ressurreição de Maria já aconteceu, enquanto todos os outros devem esperar o último dia. Não se escavou nenhum abismo entre Ela e o resto da humanidade: por graça de Deus, todos nós tornaremos naquilo que Maria é já: ou seja, completamente espirituais, transformados, corpo e alma na glória do céu.

            Portanto, a Igreja Ortodoxa crê firmemente na Assunção da Mãe de Deus. Mas não considera necessário proclamá-la como dogma, tratando-se de uma das tantas verdades cristãs incluídas na pregação pública das definições formais, mas que os fieis aprende partilhando a vida da comunidade cristã. O mistério da glorificação final da Virgem Bem-aventurada não deve ser considerado como outra verdade, a juntar às que estão confirmadas nas Escrituras; devem ser antes o resultado da assimilação das verdades bíblicas, sob a inspiração do Espírito Santo.

            Para a Igreja ortodoxa, a aprendizagem por parte da comunidade nasce da importância que se atribui à oração e ao culto comum. O culto associado à liturgia vem em primeiro lugar; a doutrina e a disciplina vêm depois. A fé é reservada pelo conteúdo das orações.

            Tudo isso é verdadeiro para a teologia ortodoxa no seu conjunto em geral. E é particularmente verdadeiro para a concepção ortodoxa da Maria, Mãe de Deus. E para o compreender melhor, para compreender como esta Igreja entende o “sim” da Virgem, é necessário olhar para as festas litúrgicas em sua honra: sobretudo a de 08 de setembro (NATIVIDADE) e 21 de novembro (APRESENTAÇÃO NO TEMPLO). No que respeita ao lugar de Maria no Antigo Testamento, considera-se a liturgia dos dois domingos antes do Natal, que celebram a recordação de todos os “antepassados de Cristo”,

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Falam da enorme família espiritual à “grande multidão”, construída por todos aqueles que “ouvem a palavra de Deus e as põe em prática”.

            Há grande dificuldade de interpretação em nosso idioma, da linguagem bíblica relativa a “irmãos”.

            Nos tópicos evangélicos, acima citados, para nosso estudo, Jesus emprega a palavra “irmãos”, não no sentido comum de consangüinidade, mas no sentido espiritual: “Meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a põe em prática”.

            Usando os nomes que nos são mais caros, de mãe, irmãos e irmãs, Jesus nos dá lição profunda para nossa vida prática: “Quem é minha mãe e quem é meus irmãos?”.

            “Estendendo a mão sobre os discípulos e olhando para os que estavam sentados à sua volta, disse Jesus: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos. “Porque todo aquele que faz a vontade do meu Pai que está no céu, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

            Jesus proclama assim o princípio fundamental da salvação de toda humanidade, até mesmo de um índio inculto ou de um pagão que desconhece, sem culpa, qualquer forma de religião.

            O caso do pagão, “em Cesaréia, de nome Cornélio, centurião da corte itálica”, é esplêndido comentário desse princípio básico de salvação, conforme já falamos no estudo 13, quando “Pedro tomou então, a palavra e disse: “Em verdade, agora compreendo que Deus não faz distinção de pessoas, mas todo aquele que teme e pratica a justiça lhe é agradável, seja do que povo for”. (At. 10,34-35).

            Maria, discípula sem igual do seu divino Filho, aprende, assimila, vive e transmite esse privilégio como ninguém: “Eis aqui a Serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra, fazei tudo o que ele vos disser”. (Lc. 1,38   Lc. 2,5).

21- MARIA, JUNTO À CRUZ DE JESUS

Evangelho: Jo. 19,25 Lc. 1-38

 

            Vimos precedentemente, Maria, feliz porque ouviu a palavra de Deus e a praticou.

            Contemplamos, agora: Maria, junto à cruz de Jesus.

            Este estudo está estreitamente ligado ao anterior e ressalta Maria aceitando a vontade de Deus no momento mais doloroso e heróico de sua vida, vinculado indissoluvelmente ao Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Redentor do mundo.

            O Evangelista João, o único, dentre os apóstolos, que acompanhou Jesus até o Calvário, é quem relata o heroísmo sem igual de Maria, “de pé, junto à cruz de Jesus”.

            Maria, como Mãe amorosíssima, vinha seguindo, passo a passo, instante a instante, o caminho doloroso do seu divino Filho, até o momento culminante da Redenção do mundo, quando ela imola, juntamente com o Pai, o próprio Filho, para a salvação da humanidade.

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Maria, com “a alma transpassada pela espada” (Lc 2,35) da dor mais cruel, acompanha todas as circunstâncias da Paixão e Morte de seu amado Filho, nos seus menores detalhes.

            Maria viveu intensamente o cruel drama da Redenção.

            Não fugiu da espada “de dor do Calvário”.

            Heroicamente, “de pé junto à cruz de Jesus”, enquanto o Filho pendia, se oferecia e se imolava, como Sumo e Eterno Sacerdote, qual “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, e o Pai também o imolava para a salvação da humanidade, Maria, plena e perfeitamente amadurecida para enfrentar o Mistério da Redenção, juntamente com o Pai o imola por todos nós.

            Maria une suas lágrimas e sofrimentos ao Sangue Redentor de seu Divino Filho, como os dois rios, embora desiguais misturassem suas águas salvadoras no imenso oceano da Redenção do mundo saindo um do “Coração de Jesus rasgado pela lança do soldado” (Jo. 19,34), e o outro da “alma de Maria, transpassada pela espada” (Lc. 2,35) da amargura, a fim de salvar a humanidade.

            Tanto do coração aberto de Jesus quanto da alma transpassada de Maria jorram torrentes de graça, para a Redenção do mundo inteiro.

 

22- MARIA, MÃE DA IGREJA

Evangelho: Jo. 19,25-27

                                        

            Acabamos de ver Maria de pé junto à cruz de Jesus.

            Numa estreita ligação com o estudo precedente, contemplaremos agora: Maria, Mãe da Igreja. É a maternidade Espiritual de Maria.

            Em meio a dores terríveis, muito maiores que as dores do parto, a Mãe de Jesus, “de pé, junto à cruz”, assistida por extraordinária força do Espírito Santo, imola com o Pai o Filho Único, para a Redenção de toda a humanidade.

            O Evangelista João, testemunha ocular do fato, narra o episódio enternecedor de Jesus, - embora no ambiente mais adverso e nas circunstâncias mais dolorosa e cruel – atento à Virgem Mãe, Senhora das Dores, Rainha dos Mártires.

            “Vendo sua Mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse Jesus a sua Mãe: “Mãe, eis aí o teu Filho”.

            José, o esposo de Maria, já tinha entregado a Deus seu espírito nos braços de Jesus e Maria.

            Agora, Jesus, prestes também a entregar ao Pai o seu espírito e ser recebido nos braços da Mãe Santíssima, a Senhora das Dores, quer antes resolver a situação de Maria.

            Maria não ficará só!

            Viúva e sem outro Filho senão Jesus, como vimos no estudo 09, a Virgem Mãe de Nazaré recebe na pessoa do Apóstolo João, um filho espiritual: “Mãe, eis ai teu Filho!”.

            Há no testamento de Jesus, primeiro, um sentido literal importante: Maria sua querida Mãe, não ficará desamparada. Maria sem outros filhos que, pela lei natural

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Insistem na diferença entre latria (adoração devida unicamente a Deus) e dulia, uma

Espécie diferente de veneração prestada a Mãe de Deus e aos Santos. Ela está mais próxima do Senhor do que qualquer outro ser humano; mas nunca A vemos distante, separada da humanidade. Por um lado, Maria mostra-nos como, para além dos aspectos exteriores, a vida quotidiana vem a ser santificada pela graça. Por outro lado, o seu

Grau de “participante da natureza divina” é de tal maneira único, a ponto de fazer d’Ela o orgulho da natureza redimida. Como diz um hino ortodoxo: Maria é o dom mais idôneo que se possa fazer chegar a Cristo das fileiras da nossa humanidade decaída.

            Dirigindo-se a Maria, pedimos-Lhe continuamente que ore por nós. Por quê? A esta pergunta os ortodoxos respondem que a Igreja é uma grande família, de que fazem parte quer os vivos quer os mortos; uma família unida um Cristo. E esta unidade realiza-se e exprime-se através da oração. Orar uns pelos outros, reciprocamente: eis uma característica essencial de pertença à Igreja. Ora, vimos que Maria é modelo perfeito desta pertença: Conseqüentemente, é também o modelo mais alto desta oração de intercessão. Todos nós pertencemos à grande família da Igreja, unida na oração na qual Ela é Mãe. Por isso os ortodoxos julgam perfeitamente natural a oração dirigida a Maria. É parte integrante da Sua vida em Cristo e na Igreja, e consideram a Virgem uma intercessora por todas as necessidades da humanidade, já que Ela está sempre atenta nas suas orações, e na sua intercessão encontra-se uma esperança segura.

            A devoção dos ortodoxos a Virgem Maria, no entanto, evita com cuidado as expressões sentimentais que possam dar a impressão de uma Mãe de Deus “mais indulgente” do que o Filho. E sempre sublinham que a invocação a Maria não diminui a sua devoção a Cristo, mas, pelo contrário, enriquece-a.

            Em tudo isto a Igreja romana e a ortodoxa têm muito em comum. Há, porém alguns pontos de distinção: um destes é o mistério da Imaculada Conceição de Maria.

            Na verdade, alguns teólogos ortodoxos consideram que Maria foi concebida sem o pecado original; e se um ortodoxo o mantivesse como opinião privada, não seria considerado herético. No entanto iria contra o consenso dos teólogos ortodoxos modernos os quais afirmam, pelo contrário, que Maria sofre as conseqüências do pecado original, ainda que não tenha cometido algum pecado.

            Os motivos por que os ortodoxos rejeitam a doutrina da Imaculada Conceição, proclamada pela Igreja de Roma, são principalmente dois. Em primeiro lugar, é necessários termos presente os Santos do Antigo Testamento, que fazem parte do longo processo através do qual Deus, de geração em geração preparou o mundo para a vinda de Cristo: e Maria é o ponto culminante deste processo; é a recapitulação da santidade do Antigo Testamento. E então, segundo o pensamento ortodoxo, declarar Maria imune do pedado original, diversamente de todos os Santos do Antigo Testamento, 

       27

CAPÍTULO III

 

          MARIA NA IGREJA ORTODOXA

         Kalistos Ware, bispo grego-ortodoxo

            Durante toda sua história, os cristãos ortodoxos viram a Virgem Maria em ligação com o Filho, e nunca separada dele. A palavra chave que indica seu lugar no mistério da encarnação é Theotókos: ou seja, em grego “aquela que gerou Deus” ou “Mãe de Deus”. A expressão foi usada em 431 pelo Concílio de Éfeso, chamado a definir de maneira clara que Cristo é verdadeiro Deus é verdadeiro homem, e não simplesmente um homem estreitamente associado a Deus. Para proclamar esta verdade, os padres de Éfeso declararam que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus.

            Com isso, não se conferiu a Virgem um título meramente devocional: a expressão Theotókos proclama uma verdade-base da fé cristã: Aquele que nasce de Maria é único indivíduo (segundo pessoa da Santíssima Trindade) dotado de natureza divina e de natureza humana. Eis, portanto, explicada a devoção ortodoxa a Virgem Maria: eles veneram-na porque Mãe de Cristo, o qual é o Emanuel (Deus conosco) através da encarnação. A honra que assim lhe prestam é na realidade prestada ao Filho.

            Refletindo depois na encarnação, descobre-se outro fato respeitante a Maria, e outro motivo para honrá-la. Descobre-se que na Anunciação Ela só se torna Mãe de Deus com o seu consentimento voluntário: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Encontramos, portanto proclamada aqui a grande verdade do livre arbítrio humano, dado por Deus ao homem no ato da sua criação, para ter depois do homem uma resposta de amor. Mas sem livre arbítrio não pode haver resposta de amor, não pode existir autêntica aceitação ou recusa de um convite. Deus, em suma, pede-nos uma colaboração completamente voluntária, e Maria é o exemplo supremo desta colaboração, livremente escolhida. Só depois do seu consentimento se realiza a encarnação.

            Eis-nos chegados aos mistérios da Igreja: Cristo deu - no-la como meio para realizar o designo divino de salvar o gênero humano. Fazer parte da Igreja (o corpo de Cristo) significa, portanto, ser chamado a cooperar para que se realize tal projeto: ou seja, fazer nossa a vontade divina. E também aqui se encontra em Maria o modelo perfeito, com o seu livre e franco “sim”.

            Certamente, com isto, nenhum ser humano adquire uma natureza divina; nem sequer Maria, já que só as Pessoas da Trindade são Deus. Daí que os ortodoxos

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 Estariam obrigados a cuidar dela, Jesus lhe dá um filho espiritual, com quem poderá morar dentro da maior segurança e proteção, pois, João, “o discípulo a quem amava” mais, era a pessoa de sua confiança.

            Mas, além desse sentido literal, a Tradição interpreta a palavra de Jesus também num sentido mais amplo.

            “Na pessoa do “discípulo amado” estamos representados todos nós, toda a humanidade como Jesus dissesse: “Mãe”, Mãe de tantas dores, Mãe com a alma transpassada pela espada” de tão grandes sofrimentos, Mãe vinculada indissoluvelmente à Redenção da Humanidade, Mãe co-redentora de todos os homens, “eis ai teu filho” espiritual e, na pessoa dele, todos os filhos espirituais de todo mundo habitado, que “te proclamarão bem-aventurada de geração em geração”.

            Em algumas traduções da Bíblia ao invés de “Mãe, eis aí teu Filho”, encontramos: “Mulher, eis aí teu Filho”.

            Jesus poderia ter dito: “Minha Mãe” – palavra tão mais suave e carinhosa -, prefere dizer: “Mãe”, como se dissesse: de agora em diante, não serás apenas minha mãe, mas também Mãe espiritual de todos os homens, especialmente daqueles que hão de crer em mim, como um Dimas.

            Jesus amplia, assim, a Maternidade de Maria, dando-lhe uma nova dimensão, a dimensão espiritual, a Maternidade Espiritual: “Eis aí teu Filho!”

            Maria, em meio a dores superiores às do parto, gera tantos filhos quantos são todos aqueles que crêem no seu Divino Filho.

            Maria, com sua Maternidade Espiritual, “a Mãe de Deus, a Mãe de Cristo”, torna-se, “na economia da graça”, Mãe da Igreja, Mãe de cada cristão, Mãe de toda a humanidade, chamada a se tornar membro do Corpo Místico de Cristo do qual ele é a Cabeça.

            Por isso, depois, disse Jesus ao discípulo: “Eis ai tua Mãe”

            Maria mesma continuará repetindo a todos nós, servos de Cristo, o que disse aos servidores de Cana: “Fazei tudo o que ele vos ordenar”. (Jo. 2,5).

 

23- MARIA, NO CENÁCULO DE JERUSALÉM

Evangelho: Lc. 24,46-52 At. 1,4-5; 8; 12-14

 

            Vimos, no ultimo estudo, Maria, Mãe da Igreja.

            O presente estudo, Maria no Cenáculo se prende ao anterior e ao seguinte.

            Contemplando a Maternidade Espiritual de Maria, vimos que ela é a Mãe da Igreja.

            Por isso, no nascimento da Igreja no Cenáculo e na sua proclamação em Pentecostes, não poderia faltar à figura feminina de Maria.

            Jesus, durante cerca de três anos, formou o pequeno grupo que seria embrião e, mais tarde, as colunas da sua Igreja, nas pessoas dos apóstolos, testemunhas “cheias da força do Espírito Santo”, testemunhas, portanto qualificadas da sua Ressurreição.

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            “Para ocupar o posto deste ministério e apostolado que Judas abandonou para ir ao lugar destinado”, os onze sortearam Bársabas e Matias, “e a sorte caiu em Matias, que assim foi associado aos onze apóstolos” (At. 1,23-26).

Os doze ficaram então sendo: Pedro e André; João e Tiago, Filipe e Tomé; Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu; Simão e Zelote, Judas filho de Tiago e Matias o sorteado no lugar do Iscariotes.

            Todos estes “acompanharam Jesus durante todo o tempo da sua permanência “(At. 1,21) no grupo ou colégio apostólico, sendo constituídos os primeiros Bispos da Igreja de Cristo.

            Eram os que o conheciam bem e podiam ser “testemunhas qualificadas da sua Ressurreição”.

            As últimas palavras de Jesus aos apóstolos foram em Betânia, no monte das Oliveiras: “Assim está escrito que o Cristo devia padecer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que em seu nome seria anunciada a todas as nações a conversão em vistas do perdão dos pecados, a começar de Jerusalém. Disto sereis testemunhas. Permanecei na cidade de Jerusalém até que sejais revestidos do vigor do alto”.

            “Levou-os para Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. E, enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi-se elevando para o céu”. Foi o momento precioso da Ascensão de Jesus pelo próprio poder, pela sua própria divindade.

            “Quantos a estes – os apóstolos – voltaram cheios de alegria para Jerusalém”.

            Os Atos, ligando os acontecimentos, acrescentam: “Quando o Espírito Santo descer sobre vós recebereis uma força, e então sereis minhas testemunhas em Jerusalém, na Samaria e por toda parte, até os confins da terra”.

            Maria, indissoluvelmente vinculada a todos os mistérios da Vida, Paixão e Morte de seu Filho, com “a alma transpassada pela espada” dos maiores sofrimentos, desde a Anunciação até o Calvário, dele não poderia se desligar nos momentos culminantes de sua glória, na Ressurreição, Ascensão e Pentecostes.

            Estes fatos – Ressurreição, Ascensão e Pentecostes – precisavam ficar indubitavelmente comprovados por testemunhas insuspeitas, escolhidas especialmente por Deus, a fim de serem transmitidos como os mais sólidos e irrefutáveis motivos de credibilidades.

            Como Maria é Mãe de Jesus, - embora seja a mais preciosa de todas as testemunhas, por conhecê-lo muito bem e tê-lo acompanhado em toda sua vida, durante cerca de trinta e três anos – os evangelistas a colocaram a parte, porque, em princípio, mãe pode ser suspeita quando testemunha em favor do próprio filho. Por ironia, mãe é apelidada de “mãe coruja”, porque esta acha sua feia corujinha em encanto de beleza.

            Entanto, Lucas sublinha a presença de Maria, tanto no Cenáculo como em Pentecostes: “Todos eles, na maior íntima união, oravam constantemente, juntos com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus”.

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     CAPÍTULO II
 

      MARIA E A IGREJA

            Apesar de não se falar muito dela nos Evangelhos, Maria é o tecido vivo da Igreja tradicional, tanto na Católica Ortodoxa como na Católica Romana. E, para compreender seu mistério, é preciso que se compreendam quem foi Eva, nossa primeira mãe, de quem Maria é a réplica celestial. E pode-se compreender Maria sem compreender a Igreja? Tudo o que é dito de Maria se aplica a Igreja e, por traz de Maria e da Igreja, está misteriosamente, esta sabedoria dançante, rejubilando-se ante o Criador “Sophia”, a “Sapientia” de que fala o Antigo Testamento.

            A maternidade encerrada “algo” que vem de baixo, da matéria, para sublimar, se abrir, caminhar ao encontro da Graça, como um cálice recebendo a vida. Este “algo” canta a Igreja sob o mais alto do que os Querubins, incomparavelmente superior aos Sarafins. A mulher em sua profundidade metafísica e, na verdade, a junção de Deus com nada, um nada que, por obediência à vontade de Deus, responde-lhe. Ou melhor, um vazio que pede e que ecoa a palavra.

            Pode-se ter uma visão completa das coisas se o elemento feminino for eliminado? É verdade que São Paulo diz que “nem homem nem mulher, nem grego, nem judeu”, porém, Cristo que tudo recapitulou era, apesar de tudo, um homem. Era necessário um complemento fêmeo. Onde está à consciência da Igreja, o sentimento de unidade cósmica do mundo que será salvo. É claro que o lugar de Maria é diferente do lugar de Cristo, que Ele é Deus encarnado e ela é o ser humano divinizado: mas quando Cristo sobe ao Pai, Ele não nos deixa somente a Igreja, através de pessoa de João: ele nos dá uma mãe: “Eis aqui Tua Mãe”.

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Homens. Agora, livre dos condicionamentos temporais, Ela preside aos que vêm após Ela e lhes dá os bens eternos. É por Ela que os homens recebem a graça. . Nenhum dom é recebido pela Igreja sem a assistência da Mãe de Deus, (que preside aos destinos da Igreja e do universo).

Ela é a Tesoureira da misericórdia de Deus: a sua proteção materna, que envolvia o Menino Jesus, cobre agora a humanidade e todos os homens. Por isso, ela é invocada como baluarte e advogada dos cristãos.

E como "Orante" Maria prefigura o ministério da oração e da intercessão. Ela é a Esposa que, com o Espírito Santo, invoca: "Vem, Senhor Jesus!" (cf. Ap 22,20).

Depois de Cristo, já no céu, com seu Filho, Maria é a plena transfiguração e deificação da pessoa humana.

E, passando do plano ontológico ao simbólico, Maria, Esposa do Espírito Santo, recebeu, além disso, uma função que a faz extraordinariamente amável: Ela é o sorriso, o ícone, o rosto do amor de carinho materno de Deus. A Mãe de Deus que, amorosamente, leva nos braços o Menino Jesus, é "a Eleusa", a imagem da ternura indizível entre o divino e o humano, a imagem do amor materno de Deus a cada um e a cada uma de nós (cf. Is 49,15)

 

22

  

24- MARIA, EM PENTECOSTES

Evangelho: At. 1,14-15; 2,1-4.

               

            Vimos precedentemente, Maria no Cenáculo de Jerusalém.

            Com a “assembléia de cento e vinte pessoas aproximadamente”, Maria se preparava para Pentecostes.

             “Por isso, estreitamente ligada ao último estudo, contemplamos”, agora, Maria em Pentecostes.

            Trata-se de um fato de suma importância para a nossa fé, na totalidade.

            A paixão do Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, (Jo. 1,29) é inseparável da sua Morte. Sua morte não tem sentido sem a Ressurreição. Sua Ressurreição, após suas aparições durante quarenta dias, e seguida da sua Ascensão. Sua Ascensão, ou volta para junto do Pai, é acompanhada, dez dias depois, pelo esplêndido acontecimento de Pentecostes, quando o Pai e o Filho derramam o Espírito Santo sobre a Igreja nascente.

            Pentecostes é uma palavra de origem grega, que quer dizer cinqüenta dias, isto é, o fato da descida do Espírito Santo, sobre a “assembléia de cento e vinte pessoas aproximadamente”, realizou-se precisamente cinqüenta dias após a Ressurreição do Senhor.

            “O Evangelista Lucas, nos Atos dos Apóstolos, descreve com ricos promissores o acontecimento de Pentecostes e destaca, na “assembléia de cento e vinte pessoas aproximadamente”, Maria, a Mãe de Jesus”.

            A “Assembléia” era formada pelos discípulos fiéis ao Senhor, dos seus autênticos seguidores, que naquele momento constituem a Igreja nascente.

            É a Igreja grande sacramento, sinal sensível da presença invisível de Deus no mundo, idealizada pelo Pai, realizada pelo Filho e assistida pelo Espírito Santo, e por isso: “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. (MT. 16-18).

            “Estavam todos reunidos no mesmo lugar”, inclusive “Maria, a Mãe de Jesus”.

 

25- MARIA, SUA DORMIÇÃO E SUA GLÓRIA

Evangelho: Lc. 1,46. -49

         Ap. 12,1.

 

            Vimos, precedentemente, Maria em Pentecostes.

            Assim, Maria se associou, com “vínculo indissolúvel”, a todos os mistérios de seu divino Filho, desde o momento em que foi concebido no seu ventre virginal, na maior humildade, até o momento da sua gloriosa Ressurreição e Ascensão ao céu, de

 

23

Onde, com o Pai, enviou o Espírito Santo sobre os apóstolos, os discípulos, a Igreja nascente, com a intercessão da Virgem Maria: “Oravam constantemente, junto com algumas mulheres, entre elas Maria, a Mãe de Jesus” (At.1,14).

            Agora, contemplamos: Maria, sua dormição, sua glória.

            É a vitória plena de Maria, a recompensa de sua sublime missão de Virgem Mãe: da Igreja, de Jesus e de cada um de nós.

            A Dormição e glória de Maria estão associadas à Ressurreição e Ascensão de Jesus, com a diferença de que Jesus, na sua Ascensão, sendo verdadeiro Deus, se eleva por sua própria força divina, enquanto Maria, na sua “dormição e glória”, são levadas, carregada pela força do Onipotente: “o Onipotente fez em mim grandes coisas!”

            De fato, entre as grandes coisas que Deus operou em Maria, refulge a sua dormição e a sua glória.

            Maria que se associou aos mistérios da alegria e da dor do seu divino Filho, na dureza da sua peregrinação terrestre, não podia deixar de acompanhá-lo nos mistérios da Glória da vida eterna.

            Maria Não poderia, pois deixar de acompanhar Jesus na sua glória.

            Na verdade, não se sabe nada da morte de Maria, nem a data nem o lugar. Certamente se excetua o (sinal) da Mulher e o dragão, que é objeto do capítulo 12 do Apocalipse de São João, de onde se permite em reconhecer uma imagem do destino final da Mãe do Messias, no Novo Testamento não contém citação a Assunção da Virgem Maria.

            Um texto atribuído a Militão de Sardes (século II), intitulado “Transito de Maria” descreve uma tumba nova, ao Oriente de Jerusalém: na entrada do vale de Getsemani, onde Pedro, seguindo ordens de Jesus, havia depositado o corpo e não o cadáver. Sinal de que a corrupção não podia alcançar aquele que foi receptáculo de Verbo encarnado, daí a expressão de Dormição.

            Maria, portanto, não poderia deixar de participar da tríplice vitória de seu Filho, Redentor do mundo: Vitória sobre o pecado pela sua impecância; vitória sobre aconcupiscência pela sua integridade absoluta; vitória sobre a morte pela sua Ressurreição e Ascensão.

        

26- JÁ NO CÉU, COM JESUS: MARIA

Evangelho: “O Onipotente fez em mim grandes coisas! Santo é o seu nome”.

                           Lc. 1,49

Com Jesus Ressuscitado, o dom do amor deificante de Deus já se realizou plenamente também em Maria Santíssima. A bondade, a ternura de Deus quis associar intimamente à vida de seu Filho Encarnado a uma Mulher: a Toda Pura.

 

 

24

Remida antecipadamente pela Paixão divina do Filho, (.), em vista de sua maternidade, Maria Santíssima é a Imaculada, a sempre virgem, a Mãe de Deus: da carne e do sangue puríssimo de Maria se formaram a carne e o sangue do Deus feito homem.

O seu "sim" pronunciado como humilde serva do Senhor, no momento da Encarnação, ela sempre o repetiu seguindo fielmente o Filho em todos os mistérios de sua vida, abrindo o coração a tesouros insondáveis de beleza e de graça. A virgem está situada no ponto culminante da santidade da Igreja, sua virgindade de amor a Deus exprime a realidade do Reino. Ela é a humilíssima, Ela é a sarça ardente, é o tálamo do Sanctus.

Na Mãe de Deus a natureza puríssima que levou em seu seio o Verbo entrou em união perfeita com a divindade. São Gregório Palamás vê em Maria a pessoa criada que une em si todas as perfeições: a realização absoluta da beleza da criação: "Desejando criar uma imagem da beleza absoluta e claramente manifestar aos anjos e aos homens o poder de sua arte, Deus fez Maria verdadeiramente toda bela. Nela reuniu as belezas parciais distribuídas pelas outras criaturas e a constituiu como ornamento comum de todos os seres visíveis e invisíveis; melhor, Ele fez de Maria uma mistura de todas as perfeições angélicas e humanas, uma beleza sublime que enfeita os dois mundos, erguendo-se da terra ao céu e superando este último". "Ela se acha no limite do criado com o incriado "Maria é a "semelhantíssima", aquela que mais se assemelha à imagem divina, ao Verbo Encarnado; e, por conseguinte, aquela que pode ser o modelo de imitação.

Depois de seu Filho divino, a Virgem Maria é a primícia, (...). Ela é a primeira pessoa humana que já realizou plenamente o fim último para o qual Deus criou o mundo. N'Ela a Igreja e todo o universo já atingiram a sua realização, que abre o caminho da deificação para as outras criaturas. Ela é o guia que precede a humanidade, e todos a seguem. Contemplando-a, a Igreja lhe canta: "Alegra-te, ó Coroa dos Dogmas". Por isso Maria Santíssima é o coração da Igreja, o seu centro místico, sua perfeição já consumada.

E como "não existe nada mais divino do que a bondade e a misericórdia" (São Gregório Nazianzeno), com seu Filho divino, Maria Santíssima, que está toda em Deus, é de Deus e para Deus, tornou-se espelho e canal da bondade e misericórdia de Deus para os

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